31 de outubro de 2005

Diário da Fonte
O PAPEL DA MÍDIA IMPRESSA




O futuro da mídia impressa é o caderno Mais!, da Folha e seu sepulcro é a revista Veja. Mais! é acusado de elitista pela leitura preguiçosa. Defender o suplemento (como se precisasse!) não o coloca como algo inatacável, mas é preciso reconhecer que ele aprofunda temas que nos perseguem. Um desses assuntos é a Internet como saída honrosa para o embrulho da falta de liberdade de expressão. Os exageros do pensamento auto-suficiente é achar que a rede mundial de computadores pode superar as contradições do capitalismo por meio de uma utopia desligada das contradições, como aponta Robert Kurtz neste domingo no magnífico artigo "O complexo de Harry Potter". A internet é um meio de circulação, não de produção, alerta o autor, sociólogo nascido e criado nesse fenômeno que é a Alemanha (que pagou caro pelos seus acertos ao deixar-se dominar, por um tempo, pela ultra-direita, que usou o carisma nacional a favor da destruição em massa). Veja fica no lado oposto: é um relatório de atrocidades a favor do golpe de estado. Fazer um estardalhaço contra o governo baseado no depoimento de dois meliantes é digno das mais sombrias determinações de Goebbels, o inventor da publicidade moderna.

ROMANTISMO - A mídia impressa não tem outra saída. Não adianta fazer como a Folha e clonar o blog do Noblat para recuperar o espaço perdido. Não se engana mais da mesma forma o cidadão que luta por informação. Não quer dizer que jornais e revistas tenham que ficar publicando apenas artigos e pensatas. É espaço para a reportagem bem elaborada, longe do atual círculo da mesmice, apontado por brilhante artigo do Comunique-se, As razões de Obelix, assinado por José Paulo Lanyi. Acusam o jornalismo antes do AI-5 de romântico, coisa do passado, mas o jornalismo que o Brasil fazia antes do arrocho é o mesmo que muita revista e jornal do Exterior faz até hoje, sem serem acusados de passadistas. Temos esse defeito. Quando se fala em trem por aqui se pensa logo em Maria Fumaça, em nostalgia, em saudade, enquanto as estradas de ferro cruzam de maneira esplendorosa a Europa e o Japão como símbolos de um transporte de futuro. O arrivismo é nossa condenação. Como somos muito atrasados, queremos parecer o que não somos, moderníssimos, e nesse equívoco enterramos as soluções que poderiam vir em nosso socorro. O ponto nodal do problema é a publicidade. As empresas adoram cacifar baixarias na TV e cadernos anódinos, que ainda imitam a TV, com grandes fotos de modelos ou paisagens. É a natureza morta da mídia impressa. Os anúncios deveriam acompanhar o que há de mais alto na concepção jornalística. Essa aliança entre a ética publicitária e a eficiência fundada na diversidade dos jornais e revistas é que vão dar alguma luz para esse quadro triste em que os leitores somem das bancas, enquanto a apelação pura e simples toma conta das capas e conteúdos.

CORREIO - Nunca vi Tarso de Castro bêbado numa redação. Ele era ativo, rápido, profundo e sabia tudo. Lembro que, estudante, comprava o Correio da Manhã para ver a cobertura das manifestações estudantis no Rio de Janeiro, acompanhada de artigos de Franklin de Oliveira, Otto Maria Carpeaux, e Paulo Francis. Era um show que a ditadura destruiu. Sempre se bebeu no bar, com honrosas exceções (quando o pesadelo que se avizinhava em nossas vidas tomava conta das rotinas). Hoje se acusa jornalistas como Tarso de serem passionais e alcoólatras. Nunca ninguém chamou Tom Jobim de bebum, e se chamou isso não tem a mínima importância. O maestro deslumbrou o mundo com sua arte e beber era coisa de foro íntimo, ninguém tem nada com isso. O que existe é má-fé. O jornalismo integrado aos interesses do capital financeiro e aos ditames ditatoriais acha que pode enterrar uma linhagem de jornalistas que foram erradicados, em sua grande maioria, das redações. O jornalismo é tão importante que o dono do jornal não permitiu mais nenhum espaço para a individualidade e o estilo. Temos hoje a decadência mortal dessa receita. Para sair dela, é preciso abrir mão da sacanagem, apenas isso. A saída é a democratização verdadeira da mídia impressa, a volta do talento, a aposta na diversidade do pensamento. Isso vai trazer leitores de volta. Chega uma hora que a internet cansa e só um bom jornal ou revista pode aplacar nossa sede espiritual e física por bons textos e informações valiosas.

30 de outubro de 2005

Diário da Fonte
AS FALSAS VIRTUDES DA EXCLUSÃO




Os jornalistas agora são todos abstêmios, ninguém bebe. São também profissionais responsáveis, não há mais passionalidade nas redações. Isso é coisa do passado, como demonstrou cientificamente artigo na Ilustrada de ontem sobre a biografia de Tarso de Castro escrita por Tom Cardoso. Mas eles se entregam: assim como só temos gente fina na imprensa, também só temos MPs do Mal, com exceção de uma, a do Bem. Deduz-se por exclusão que o monstrengo de 134 artigos que atrapalha ainda mais o sistema tributário é a maravilha da burocracia esclarecida. Assim funciona a racionalidade da mídia, dominada atualmente, em sua maior parte, pela mão de ferro do terror cultural. A cidadania do Bem tomou conta do imaginário oficial do País. É por isso que engrosso aqui as fileiras da campanha lançada por Tailor Diniz no Umbigo de Cobra, sobre os Boêmios do Bem. Ao invocar a tradição brasileira do Bar como encontro de espíritos livres, Tailor nos alerta para a hipocrisia que tomou conta de nós, e acrescento: o tranco da voz artificial dos repórteres de TV destacam didaticamente aquelas pessoas sempre às voltas com algo pretensamente virtuoso. Como se o Brasil tivesse sido vítima de um golpe de Estado, liderado pelo Chatotórix, aquele bardo impoluto que era expulso das alegres rodas dos gauleses.

DITADURA - Recebo mensagem de alguém que denuncia a situação: "Minha mãe, que estava muito doente, com Mal de Alzheimer e tumor cerebral, faleceu no dia 22.10.2005. Dinah Marzullo Tangerini, nascida a 1.6.1917, era filha da atriz de cinema, teatro, tv, rádio (Rádio Nacional) Antônia Marzullo e esposa do compositor, teatrólogo, cariacaturista, poeta e professor de Língua Portuguesa Nestor Tambourindeguy Tangerini. Na década de 1930, Dinah trabalhou na Cia. Teatral de Alda Garrido ao lado de sua mãe e da irmã, Dinorah Marzullo Pêra. Lamentavelmente, a imprensa do Rio se recusa a dar qualquer notícia sobre meu pai, minha mãe e minha avó. Era desejo de minha mãe ver toda a obra do meu pai publicada. Mas eu não consigo publicar nada. Não consigo publicar seus sonetos, seus monólogos, suas trovas, suas peças, suas caricaturas. Não consigo publicar uma biografia que escrevi sobre meu pai. Todos sabem que estou sendo silenciado. A verdade não pode vir à tona. "Que país é este?" Estamos vivendo sob uma nova ditadura, a ditadura da mídia. Tenho pedido - em vão - ajuda às minhas primas Marília e Sandra Pêra. Elas estão na mídia. Nenhuma resposta. Em 2004, estive na casa do Sérgio Britto e ele me disse que não vou conseguir salvar a memória do meu pai. O quadro é desanimador. A imprensa não tem o menor respeito pela cultura. Vivemos num país de máfias: máfias literárias, máfias jornalísticas, máfias musicais... Soube que uma lista de nomes indesejáveis circula pelas redações dos jornais. Esses nomes não podem entrar na mídia. É o fim, não? E ninguém se manifesta. Precisamos fazer uma denúncia. Um abaixo assinado, talvez. Estou sendo silenciado pela imprensa. Meu pai e minha mãe estão sendo silenciados pela imprensa. Este é o triste retrato do Brasil. Abraços, Nelson Marzullo Tangerini. Rio, 30/10/2005".

CÂNONE- Esse quadro denunciado por Nelson me levou a uma decisão estratégica faz alguns anos. Trabalho a favor dos excluídos, de todos os matizes e níveis. Descobri que no Brasil não podemos fazer autocrítica, pois a tremenda exclusão faz com que levem ao pé da letra a visão realista que temos de nós mesmos. Procuro então criar um novo cânone. O que parece muitas vezes exagero da minha parte, é justiça somada à necessidade de revelar o brilho oculto dos talentos não reconhecidos pela ditadura. O cânone (o mais importante romance, o grande poeta oculto, a biografia maravilhosa, a antologia reveladora e assim por diante) cria um novo parâmetro e pode ser brandido diante das fuças dos bem postos, que fazem entre eles algo que se parece ao que faço aqui, pois vivem se incensando mutuamente. Só que no Diário da Fonte o que pega é a denúncia e a revelação, enquanto neles o que importa é o compadrio e o ocultamento.

DECISÃO - Amor aos contemporâneos e respeito à História. Longa vida à arte verdadeira, que está longe dessas falsidades pretensamente benévolas, que nada mais são do que a máscara do horror que nos sufoca.

29 de outubro de 2005

Diário da Fonte
O BRASIL QUE PERDEMOS




Hoje, quando completo 57 primaveras, meu editor Dorva Rezende, brilhante jornalista da nova geração a que me refiro neste texto, me brinda com a publicação no seu obrigatório caderno Cultura, do Diário Catarinense, da minha resenha sobre dois livros. Um, o novo romance de Moacir Japiassu, Mestre; e outro, a biografia do Tarso de Castro, por Tom Cardoso, amigo e filho de amigo.

Nei Duclós


Se a História é pura representação, como quer Hayden White e seu inesquecível livro Trópicos do Discurso; se os fatos jamais poderão ser resgatados em toda a sua complexidade, mas podem ser entendidos em parte graças à pesquisa e à conceituação, como quer Weber e seu Tipo Ideal; e se a Revolução Francesa não passa de uma versão genial de Michelet construída 40 anos depois da Queda da Bastilha (em que seus desdobramentos, a ditadura imperial e a restauração monárquica, fatos, foram deixados em segundo plano em benefício da idéia de heroísmo popular), então a História não pode ser vista a olho nu. Cai por terra, assim, o lugar-comum "testemunha ocular da História", tão cara ao jornalismo brasileiro, até hoje vigente, tanto é que os repórteres de TV costumam repetir que "estamos presenciando um momento histórico".

Mas a sofisticação teórica não costuma se implantar automaticamente, e toda a mudança de paradigma, como defendeu Thomas Kuhn e sua A estrutura das revoluções científicas, se impõe forçada pelo Tempo e não pela Lógica, ou seja, só quando as carreiras acadêmicas fundadas nos parâmetros consagrados desaparecerem da Terra é que há alguma chance das novas teorias serem aceitas definitivamente. Foi assim com Newton, como exemplifica Kuhn, e se foi com Newton, o quanto será com outros menos importantes?

Estarão fadados a longo exílio, especialmente no Brasil, onde o deslocamento entre teoria e prática dita o perfil da nação periférica, como provou Roberto Schwarz no clássico Um mestre na periferia do capitalismo, livro de leitura obrigatória e que deveria ser debatido em praça pública para implantar no país a noção da democracia das idéias. Seria exatamente ao contrário da atual situação, em que cristalizações do imaginário se digladiam num estado de ruptura permanente, em que tudo fica pior, fruto da vontade jamais alcançada de mudança sem o apoio da verdadeira iluminação das leituras, a que nos transforma pela essência e pelo detalhe e jamais pela imagem que se faz de um livro ou autor. Mas se enganar o povo não tem vocação para o eterno, como determinou Abraham Lincoln, há chances de chegar ao fim o exílio a que foram condenados fatos e versões.

Dois autores, de gerações opostas, nos iluminam pela construção de um resgate profundo do que continua oculto no país do eterno presente. Um é o romance Quando alegre partiste - Melodrama de um delirante golpe militar (Francis, 287 páginas), de Moacir Japiassu, romancista maior (autor de Concerto para paixão e desatino e A Santa do Cabaré), veterano e considerado jornalista que desde os anos 1960 percorreu as redações brasileiras com o brilho do seu talento e a acidez ilustrada da sua escrita. O outro é a biografia 75kg de músculos e fúria - Tarso de Castro, a vida de um dos mais polêmicos jornalistas brasileiros (Editora Planeta, 268 páginas), de Tom Cardoso, representante da nova e brilhante geração de jornalistas que, apesar de todas as dificuldades, se destaca pelo inconformismo e o trabalho duro. Tom é filho de Jary Cardoso, um dos mais importantes jornalistas culturais do país, o profissional que trabalhou várias vezes com Tarso de Castro e é contemporâneo de Japiassu. Nesse enlace de protagonistas, podemos detectar, tanto na ficção quanto na representação histórica (já que a biografia de Tarso escrita por Tom é o concerto breve e demolidor de um tempo que se foi), uma nação interrompida no auge da sua criatividade e grandeza e que deixou marcas, que hoje nos cabe incorporar.

Japiassu recompõe o trajeto de alguns personagens, a maioria militando na imprensa carioca e mineira, que se deparam com o pesadelo: o golpe de 1964, que encerrou a carreira de um Brasil orgulhoso de suas lutas e inaugurou a nação que temos hoje, dividida e violenta, apática e com a soberania ameaçada. A profissão, na época, e antes da sedição, era exercida com as contradições normais de empresas ligadas à sobrevivência econômica, mas a população que a habitava, formada na excelência da escola pública ainda não sucateada, impunha seu estilo por meio da coragem e da teimosia. Já existiam, na época, os grandes jornalistas, que fizeram História e que mantinham a linhagem, mais tarde interrompida, de gerações formadas no front, na escola da máquina de escrever e das ruas, sem as imposições da formação especializada. Eram generalistas talentosos, envolvidos num vendaval de fatos e situações que os empurrava para a tragédia. Mas Japiassu escreve com a liberdade dos criadores. Não compõe um pano de fundo para a História, antes denuncia a contrafação imposta pelo golpe, por meio de citações de trechos publicados na imprensa, que ficou sob mordaça. Cada capítulo é precedido por um pedaço dessa empulhação, o que dá liberdade para o estrategista do texto reverter a situação, pois seu objetivo é estocar a ferida e vê-la sangrar.

Para que isso aconteça, ele é impiedoso com todo mundo. Não libera os jornalistas da época, hoje sob a aura do heroísmo, das iniqüidades comuns do humano, como o vício e a covardia. Mas esse jogo limpo com os personagens o deixa livre para entender a grandeza desses grupos colhidos pelo Mal. Como todo grande romancista, Japiassu não presta tributo ao bom comportamento e sua virulência só nos liberta, antes de nos incomodar. É crua a narração cheia de álcool, tabaco e cocaína, tortura e fuga, humor e desespero. Mas é nesse rio tormentoso que nos lançamos sem nos afogar, para navegar não só na perfeição da obra, como nas revelações liberadas pelo pesadelo. A partir do que ele narra, é possível entender melhor o Brasil que perdemos, mas que ainda pulsa, soberano, no coração dos habitantes vivificados pelo testemunho dos sobreviventes.

Tom Cardoso estoca fundo essa ferida aberta no romance de Japiassu. Seu livro começa em 1968, quando Tarso de Castro, o jornalista fundador do Pasquim, entre outros jornais de radical inovação, irrompe na Última Hora do Rio na coluna Na Hora H, confrontando os personagens da ditadura antes do desfecho do Ato Institucional Nº 5. O carisma de Tarso e o fascínio que exerce em seus contemporâneos são reconstruídos por Tom num texto que Tarso de Castro não só aprovaria, mas provocaria nele uma das suas célebres gargalhadas. Nos detalhes, somos conquistados por revelações surpreendentes: Tarso é o cabeludo que aparece na rua da amante na canção de Roberto Carlos, Detalhes, já que os dois disputavam a mesma mulher; Paulo César Pereio, o ator amigo de Tarso, foi o autor da letra do hino da Legalidade, o movimento que impediu um golpe de Estado em 1961, liderado por Leonel Brizola, e foi definitivo para a carreira de toda uma geração de jornalistas, não só do Rio Grande do Sul; Tarso abandonou a musa de Hollywood, Candice Bergen (depois se arrependeu); o Folhetim, encarte da Folha que duplicou as vendas do jornal em 1977-1978, foi criado por Tarso e Otavio Frias, patrão da Folha, numa mesa do Rodeio, sem o conhecimento do diretor de Redação, Cláudio Abramo, que estava doente; O Panfleto, jornal trabalhista fechado pelo golpe de 64, foi uma pré-estréia, regida por Tarso, do Pasquim, tablóide carioca que chegou a vender mais de 200 mil exemplares por semana, foi esvaziado pela ditadura, mas marcou a imprensa brasileira para sempre.

Os dois livros trabalham a matéria-prima de maneira diferente e em graus variados. Japiassu é o mestre de um texto admirado por talentos como Augusto Nunes (autor do prefácio, que faz o balanço da carreira literária do autor). Tom é um estreante com gana de vencedor, com texto limpo e transparente, que não perde tempo explicando demais, já que confia na inteligência do leitor. Ambos, separados por décadas na certidão de nascimento, nos garantem leitura fundamental para o Brasil, que precisa ser reconstruído em toda a sua grandeza.

RETORNO - 1. É um aniversário e tanto. À meia noite e um minuto, meu irmão Luiz Carlos me liga de Curitiba, onde é renomado professor de Tecnologia de Informação na PUC, com o bordão: "Primeiro eu!". Lisca falou comigo uma hora, relembrando tempos maravilhosos dessa nossa eterna juventude. 2. Mestre Moacir Japiassu me escreve e fico com um nó na garganta: "Consideradíssimo amigo, você faz aniversário e quem ganha presente somos o Tom e eu! Não é justo, acho, mas quem não agarraria e esconderia no peito tal e honroso regalo? Só não mais poderei escondê-lo das invejas do mundo, porque está nas páginas do Diário Catarinense...Como posso agradecer ao consideradíssimo amigo? Falecem-me as palavras, pode crer. É a segunda vez que você comove profundamente este humilde autor, pois a primeira está registrada nas orelhas do livro. Foi magnífica idéia reunir "Quando Alegre..." à biografia do Tarso,que está homenageado na página 228 do romance, tá lembrado? O encontro de Maurício com Brizola e Paulo Schilling se deu na Redação do Panfleto. Muito obrigado, consideradíssimo amigo, por este final de semana que se faz alegre em meio à chuvinha que refresca e ajuda a fertilizar esses palmos de terra que formam o Sítio Maravalha. Receba aquele sempre saudoso e afetuoso abraço do Japi".

28 de outubro de 2005

Diário da Fonte
DUAS FEIRAS E UMA VOCAÇÃO



O convite feito pela Prefeitura de Uruguaiana por meio de seu secretário de Cultura, Miguel Ramos, que me transmitiu ontem por telefone a notícia em nome do prefeito Sanchotene Felice, me comove e me enche de orgulho: serei o Patrono da Feira do município este ano. Novembro será um mês animado. Além de participar do tradicional evento, estarei também debatendo poesia numa mesa redonda no dia 4, dessa vez na Feira do Livro de Porto Alegre. Junto com Marco Celso Viola e outros convidados, vamos resgatar um pouco da nossa trajetória que começa em 1968/9 e deságua hoje propondo ainda o fim da exclusão literária. Para onde nos leva nossa vocação? Para as responsabilidades que temos como cidadãos, especialmente nesta época em que não podemos mais errar. O livro representa uma confluência de vetores que começa na alfabetização e chega na soberania. É ficção, ciência, poesia, História, política, cultura, comportamento. É empreendimento, já que movimenta não apenas livreiros, mas gente de todos os ramos, como designers, fornecedores, editores, comerciantes, instituições. A atualidade do livro é uma evidência que se reflete numa gigantesca indústria, que do best-seller ao ensaio erudito concentra a produção de pensamento de espíritos livres, tanto de autores quanto de leitores.

CORRERIA - Uma feira do livro, portanto, é mais do que um evento cultural ou social, ou uma oportunidade de negócios ou uma exposição de escritores e obras. É esse encontro que defino como cultura, em que as pessoas se reúnem fora dos seus circuitos habituais para ganhar impulso o que nos mantém vivos: o sentido de viver para a criação e o entendimento do que nos cerca. Tanto se fala em manter saudável o corpo nas televisões, com gente se esbaforindo para todo canto, o que deve ser extremamente saudável, apesar dos inúmeros acidentes também reportados no noticiário, em que o corpo não agüenta a vaidade de não querer engordar ou envelhecer. Depois de brigar contra o inevitável durante muitos anos, descobri que a genética e a natureza têm suas razões e por isso deixei para lá. O próprio corpo, liberado da pressão, se encarrega de impor limites, por isso é tão importante a ressaca. Mas pouco se vê nas TVs a presença dos livros. Há uma exclusão do livro nas novelas e telejornais, a não ser eventualmente, quando levam palhaços para a feira do livro e distribuem folhetos para a gurizada, que gosta mesmo é de livro que fica em pé, como já provaram os milhões de exemplares do Harry Potter. Lembro que na minha casa tinha a coleção completa infantil do Monteiro Lobato, o pai dos escritores brasileiros. Invernos sem fim cruzei vivendo no Sitio do Picapau Amarelo, hoje destruído pela Globo em mais uma noveleta ridícula. Livros de capa dura, que mal davam para segurar, mas que eram lidos, relidos e requete lidos.

BIBLIOTECAS - O livro começa na família, na infância, passa para a biblioteca da escola, a livraria, as grandes bibliotecas e finalmente a biblioteca particular. Ter livros em casa não é enfeite, é necessidade. Onde foi parar meu Quixote? Por que não li ainda a Montanha Mágica, do Thomas Mann, que há anos dorme na estante? Preciso reler Lorca. Quero ver o que o Foucault tem a dizer sobre isso. Não se deve incentivar o fetichismo do livro como objeto de exclusão, em que o leitor de sovaco deita regras sobre ouvidos desarmados. O que se lê, como escreveu recentemente na Folha o Ferreira Gullar, fica fazendo parte do corpo, da pele, dos cabelos. Citamos de memória, que é a verdadeira citação, já que a citação ipsis litteris para mim é cópia (e, muitas vezes, falsa erudição). O livro lido pelos outros ajuda a nos civilizar. Eles descrevem o que leram, reproduzem à sua maneira conteúdos que nunca vimos e pronto, está estreitada a amizade ou fica livre o caminho para o amor.

27 de outubro de 2005

Diário da Fonte
A HISTÓRIA NA RODA VIVA




Luis Fernando Veríssimo, a quem tanto admiramos, tem o direito de ficar fulo com o resultado de referendo. E também de invocar exemplos da História para lamentar a opção maciça do eleitorado no dia 23. O que nos cabe é investigar seus argumentos. Aqui mesmo invoquei algo que perpassa a História: a luta pela soberania de armas na mão. Pode ser encarado como anacronismo (adoram dizer que somos velhos quando falamos em História), o que não está correto, segundo minha visão. LFV fala que aconteceu algo idêntico na época da abolição da escravatura e na revolta da vacina. É preciso colocar o que os historiadores chamam de especificidade. Os abolicionistas que eram escravagistas (alguns deles eram realmente) trabalhavam o tema dentro dos parâmetros da época. Havia a percepção de que tinham sido importados escravos negros demais no Brasil e que era preciso acabar com a situação. Uma das soluções era selecionar os novos migrantes. Joaquim Nabuco, como escrevo num dos textos mais visitados no meu site, era contra a imigração asiática e a favor da européia. O que se discutia era quem iria substituir os escravos nas fazendas. A idéia era colocar mão-de-obra livre no lugar da escrava, gente de pele branca para branquear a raça (projeto que foi bem sucedido na Argentina, onde, antes do grande mistério do fim dos africanos naquele país, metade da população da capital Buenos Aires era negra). A libertação dos escravos não obedeceu apenas ao decreto da princesa Isabel, mas transformou-se num processo complicado, ainda atual. Não pode ser brandido de modo anacrônico, como fez LFV.

CORTIÇOS - A revolta da vacina é outra complicação. Vacinar era parte de um projeto, inspirado nas transformações de Paris e Londres (como bem abordou o livro de Marshall Berman Tudo que é sólido desmancha no ar), em que foi decidido erradicar os cortiços no centro do Rio de Janeiro para transformar a área numa imitação européia. Importaram-se até os terríveis pardais, aves adventícias que dominaram o pico em todo o país e expulsaram a diversidade da fauna aviária da mata atlântica que vivia nas cidades brasileiras. Era higienização e imposição da ditadura civil. Além disso, os funcionários que iam vacinar sentiam-se à vontade para agarrar as mulheres e aplicar injeções nas, digamos, "partes pudendas" (isso sim é anacronismo!). O corpo da população ficou à mercê do Estado, o que era comum numa época escravagista, mesmo que a escravidão estivesse fora da lei. Os erros de como foi feita a vacinação em massa cindiu a opinião pública e mobilizou a população. Não é, portanto, algo límpido e cristalino que possa ser invocado para dizer que, naquela época como agora, a massa estava contra algo que iria beneficiá-la. Até hoje existem ramos da medicina, como a Homeopatia, que é contra a vacinação em massa, imaginem na virada do século retrasado.

DIREITOS - O debate político tem sido amplo, especialmente na internet, e nos catequiza da melhor forma possível. Pessoas com posições opostas acabam juntas em episódios como o referendo (Luiz Fleury, dá licença!). Foram vários os motivos que levaram as pessoas a votar Não. Acredito num só, já citado, mas todos têm o direito (lá vem a palavrinha anatemizada de novo) de contrapor com suas próprias argumentações. O equilíbrio é difícil, pois há muita coisa envolvida. No mesmo dia em que foram reveladas as fitas do caso Celso Daniel, prefeito assassinado de Santo André, em que aparece José Dirceu em conversa com o chefe de Gabinete de Lula sobre como as testemunhas deveriam se comportar (foi isso o que se soube por parte da imprensa) um grupo de artistas e intelectuais fazia um abaixo assinado a favor de Dirceu e da democracia. Acredito que as pessoas que assinaram têm motivos diversos para participar do movimento. Mas acho precipitado apoiar alguém que ainda está na berlinda. E se for provado o contrário do que os membros da lista defendem? Eis uma nova sinuca de bico para a cultura brasileira, que representa os conflitos mais candentes da situação política.

BALCÃO - De minha parte, obedeço a um comportamento ciclotímico: serenidade sendo substituída por indignação e vice-versa. O importante é que não machuquemos o debate com acusações impróprias, nem deixemos que se alastre pela opinião pública a certeza granítica de que a democracia está só de um lado do balcão.

26 de outubro de 2005

Diário da Fonte
CULTURA: MANIPULAÇÃO E LUTA PELO PODER




Leio livro importantíssimo de Michael Denning, "A cultura na era dos três Mundos", lançado pela Francis, que faz balanço analítico de dois séculos de conceitos relacionados com esta palavra, que hoje ocupa o centro do debate político. A resenha fica para mais tarde, quando acabar o livro, mas a obra já me provocou uma série de abordagens sobre o caso brasileiro. Vamos pegar o exemplo do cartaz que mostra o senador Jorge Bornhausen vestido com farda nazista, onde está reproduzido, de maneira deturpada, sua declaração pretensamente racista (a frase está modificada para "este" raça, a denotar estrangeirismo no uso da língua portuguesa, o que não ocorreu de fato). Trata-se de burrice e sacanagem. Dá armas para a direita, pois é um cartaz mentiroso. Não porque Bornhausen seja ou não racista (não é esse o ponto), mas porque Bornhausen não se referiu nem a preto, nem a pobre, nem a operário, como está no cartaz, mas aos ladrões do PT flagrados com a mão na cumbuca (o que não livra a direita de ter cometido ou cometer o mesmo crime). Tudo indica que o cartaz foi confeccionado pelos ladrões flagrados com a mão na cumbuca. Distorce a declaração e faz propaganda enganosa. É crime. Além do mais, aprofunda o fosso da federação, colocando Santa Catarina como estado racista. Tem racista aqui como em todo lugar. Mas manipular os preconceitos para uso político é crime hediondo. Outra coisa: o cartaz representa o ódio de Lula a Bornhausen, que estaria ofendendo a sua família, Lulinha/Telemar à frente. No fundo é a velha briga patrimonialista. Coloca o debate político nos termos do Império.

IMPÉRIO - O que tem a ver isso com cultura? Tudo a ver. Aqui na periferia capitalista, não temos o privilégio dos doutores gringos de poder pensar à vontade sobre cultura e poder, já que não estamos, como eles, bem garantidos por nações consolidadas e imperiais, ricos pela pirataria que implantaram há séculos. O imaginário imperial, incorporado pelos pensadores dos países milionários, tenta ser politicamente correto com os povos excluídos e sem história. Eles acreditam, ainda, piamente, que não temos história, como queria Ranke, o inventor da historiografia moderna (século 19). O que cabe a nós é tomar o centro das reflexões e analisar o processo do nosso ponto de vista, encarando o mundo imperial como periférico. Não só como exercício de descolonização cultural, mas para fazer justiça ao povo soberano. O Brasil desenvolveu formas específicas de manipulação cultural a favor do poder. Qual o poder? O do dinheiro e do patrimônio grilado da nação. Qual a cultura? A que torna despossuída a população escravizada materialmente. Uma das formas de conseguir isso é esvaziar a sobriedade do estudo e da própria cultura. Basta transformar a escola em lugar lúdico, como acontece na novela Malhação, da Rede Globo, onde o que conta é a formatação do corpo em exercícios orientados pelos adultos, o namoro e o desfrute. A cultura é transformada num show, um espetáculo, fora, portanto, de suas principais armas,que é a denúncia e a expressão de espíritos livres. Transformar platéias em massas coletivas de mãos ao alto, que balançam ao som do baticum e da voz deturpada e sem letra, assim como não há mais melodia, é uma forma de dominação profunda que erradicou a criação cultural de alto nível a que chegamos, apesar de tudo. O esporte, monopolizado por uma rede no essencial, é o espetáculo dos corpos submissos, apesar das barrigas tanquinho. A arte dos craques subsiste em meio à cartolagem corrupta e ao comentarismo corporativo (por que não reproduzem os momentos dos jogos apitados pelo juiz ladrão em que o Arnaldo César Coelho garantia que o juiz estava certo e a regras são claras?).

NOVELAS - Esse histórico de exclusões atinge não só a TV, mas a mídia impressa e agora a Internet. Na TV, o período do Brasil soberano (1930-1964) foi erradicado das novelas (que começam na República Velha às seis da tarde e vão para os anos 70 e 80 às sete e chegam até hoje na novela das nove). Só como mini-série, quando há extensa manipulação, como prova Agosto, de Rubem Fonseca, Anos Dourados e acredito que agora, na mini-série sobre JK, que vai preparar a direita para voltar ao poder central, pois o jotakismo possui o charme conservador e mentiroso dos grandes feitos, quando não passou de um esbagaçar fulminante do que foi acumulado na Era Vargas. Na mídia impressa, a esperteza da exclusão coloca dentro do cercado alguns analistas outsiders, como Jânio de Freitas ou Gilberto Vasconcelos, enquanto se manipula a História a favor do friasismo e do juliomesquitismo. Na internet, milhões berram em silêncio, enquanto pontificam os espaços nobres do noticiário acoplados a grandes portais, o que torna a leitura quase compulsória. Voltaremos ao tema.

25 de outubro de 2005

Diário da Fonte
POLANSKI, A GANGORRA DO MAL



Não há luta do Bem contra o Mal em Roman Polanski, há apenas a revelação de todas as nuances do Mal. Desde sua estréia em A Faca na Água, em que personagens prisioneiros se defrontam com a falta de solução e saídas, passando pela investigação criminosa que mostra o quanto o poder público é protagonista da tragédia da cidadania, e chegando ao desfecho da busca desesperada de Harrisson Ford por Paris, onde procura a mulher e se envolve com a dama de vermelho que o seduz e acaba sacrificada, Polanski é esse cineasta intragável que não faz concessões à ilusão do que entendemos por humano. Por ser brilhante, jamais faz do seu cinema uma instalação em preto e branco, ou um pastiche de formas que sucumbem ao que traz à tona. Com ele, o Mal sobe e desce na nossa percepção como gangorra sinistra.

MONSTRO - Somos vítimas de seus jogos mortais, pois nos seduzimos pelo thriller policial que faz Jack Nicholson entender como funciona o abastecimento de água em Los Angeles, pelas pistas deixadas pela esposa desaparecida até ser trocada num resgate à beira do Sena. Ele usa a narrativa para nos enredar na sua maldição. Não satisfeito com essa performance, ainda é capaz de nos surpreender fazendo o vilão sádico que corta o nariz do herói que procura a verdade ou ainda pior, incorporando um delegado no meio de um temporal perdido no ermo, quando faz o lento e doloroso balanço da vida do escritor que pensa ainda estar vivo. Polanski nos humilha porque coloca barreiras indevassáveis entre o espectador e o criador da obra. Nunca chegaremos aos seus redutos. Eles apenas usa o que nos ilude para decifrar o código que nos mantém vivos e bate nesse brinquedo caro com os pés. Desde o dia em que os vampiros desceram do teto para sugar sua esposa mais tarde assassinada por fanáticos, ele consegue ser o que detestamos admitir. O que guardamos como ossos de um baú sem chave ele retira com a gargalhada de uma criança precocemente amaldiçoada. Queremos distância desse baixinho, mas ele insiste, e descerra a brutalidade da História para nos fazer resvalar precipício abaixo. Quando estamos vendo um filme de Polanski, nossas convicções caem junto com o nosso corpo, e o olhar que tínhamos perde o sentido. Resta Polanski pronto para rasgar o ventre da superfície da água e retirar do fundo do rio as vísceras de um monstro que não queremos ver.

PROFECIA - Seu cinema divide o Tempo. Polanski já sabia o que nos esperava no século 21 e resolveu compartilhar suas alegorias cevadas em pesadelo para que nos preparássemos. Jamais estaremos prontos para tanta crueza. Queremos colo, sorvete, footing na praça. Mas basta caminhar um pouco pela rua vazia de um verão antigo para lembramos que foi sempre assim nos filmes que marcaram época. Aquele John Wayne irreconhecível de John Ford que quer matar a sobrinha que sobreviveu ao massacre dos índios; aquele Alan Ladd que some no horizonte ferido enquanto a criança que somos nós grita por Shane; aquele Moisés de que desce da montanha com a tábuas da lei transfigurado de pavor por ter visto Deus; aquele salto triplo de Tony Curtis quando dedica o último suspiro ao abismo, para cair no punho de um Burt Lancaster até ali perdedor; aquele violinista no telhado; aquele arco íris que não chega no caminhar sem fim rumo a Oz e à casa paterna; aquela dança de Russ Tamblin, o maior dançarino do cinema de todos os tempos, tentando fazer rir pelo exagero suicida do corpo quebrado; aquela morte de Maria/ Natalie Wood em West Side Story; aquela sombra de Dusseldorf; aquele barco de Limite e de Aurora; aquela decepção da florista que reconhece seu benfeitor; aquele pedaço de circo deixado no chão antes de Chaplin partir para a estrada sem fim; essa dor que é a sétima arte, a que nos fez maiores do que jamais seríamos, arte que partiu e às vezes volta em alguns filmes poderosos, mas que sabemos ter ido embora como as diligências perdidas no deserto, como o capitão Ahab amarrado a Moby Dick, como o Capitão Kurz mortalmente ferido pela sombra, como o Godfather sussurrando o poder para o filho.

ADEUS - Quando partirmos, os anjos nos perguntarão: o que fizeram de suas vidas? Fomos ao cinema, diremos, e Deus talvez se apiede de nossas almas pecadoras. O Mal então, sairá do caminho, pois não seremos mais humanos, e Polanski poderá estar entre nós, sem se aproximar, sem se aproximar, sem se aproximar...

RETORNO - Foto recente tirada hoje na redação da revista Empreendedor, em Florianópolis. Meio distante, um pouco sombria, mas verdadeira. Feita por Kaloka, o fotógrafo que me atura na revista e que atendeu meu pedido para atualizar a imagem de um escritor que virou jornalista, de um editor ainda no front.

Diário da Fonte
A DESCONSTRUÇÃO DA VITÓRIA



Deu o que era esperado: os analistas profissionais não mudaram suas convicções depois da avassaladora vitória do Não e saíram a campo para enquadrar o voto do Brasil soberano em suas mentalidades viciadas no pensamento único. O argumento recorrente é que foi um protesto contra as políticas públicas de segurança do governo. Estas teriam fracassado. Todos sabem que não existe política de segurança. Existe guerra civil, em que o Estado omisso se dedica a confrontar uma situação criada pela falta de distribuição de renda e para defender os interesses dos coronéis dos grotões, estejam eles nas capitais ou não. Triunfa, nesse quadro, a grande putaria (o prefeito de Ribeirão Preto está sendo acusado de promover a sessão de fotos que aparece na última Playboy). Faz parte da destruição do país transformar as pessoas fragilizadas em repasto para a prostituição, que atinge desde crianças de menos de dez anos até as mais badaladas personalidades da exposição da carne. O povo sabe com quem está lidando e não é de hoje.

BLOGS - Outro argumento é que foi vitória do marketing do Não. Duvido que as pessoas tenham assistido as campanhas ridículas desse referendo ridículo. Mas não há opinião que se insurja contra a mesmice dos enquadramentos teóricos, em que são requisitadas figurinhas carimbadas da idiotia cerebral. O motivo é um só: foi a manifestação de soberania do povo em armas, que fez a nação por séculos e gerações. Isso, claro, nem consta na cabecinha premiada da mídia comprada, que agora, derrotada nos veículos tradicionais, migra para a internet com seus vícios. Os blogs jornalísticos, com seus comentaristas, a maioria, engraçadinhos, são a substituição de uma chance única de termos uma imprensa democrática. Os ex-poderosos das redações pontificam nos blogs com suas colchas de retalhos, reproduzindo o que não deu certo nos jornais tradicionais. É a exclusão velha de guerra: os luminares ocupam seus espaços na rede para repisar o erro, enquanto a boa guerrilha da diversidade da informação continua em desvantagem. Mas só por enquanto.

FURACÃO - Ontem, no Jornal Nacional (o release do poder) gastou muitos minutos com as vitórias do Sim (onde? Em duas cidades? E assim mesmo de maneira apertada) para confirmar suas teses de que o Sim tem a ver com a segurança da população e o Não, não. Jamais dão o braço a torcer. Jornalismo para eles é ficar de microfone na mão no meio do furacão para dizer: puxa, o furacão, vejam. Querem dominar as imagens da devastação, colocar lá o pobre do repórter que faz assim a sua carreira. O que precisamos é de reportagens desvinculadas da canalização dos interesses e opiniões do mercado de idéias. Tudo passa pelo dinheiro, pela compra e venda, pelos negócios. É de chorar a cobertura sobre o novo presidente da Fed. Como ele é importante, que coisa. O noticiário brasileiro é mais realista que o rei. Paga pau para o poder imperial assumindo o papel que nem a imprensa americana possui. Parece que são os donos de Wall Street. Enquanto isso, recebem prêmios internacionais pelo noticiário econômico, esse pilar da entrega da soberania. Noticiário econômico deveria se ocupar de um só assunto: exportamos proteína (a aftosa e a gripe aviária são apenas "detalhes")para acumular dinheiro em moeda forte, que volta para os seus donos em forma de pagamento de dívida externa. É o dólar em consignação (quando devolvemos o que não conseguimos reter). Puxa, o novo presidente do Fed, o "Banco Central" americano (dizem isso para a gente entender, como se soubéssemos o que é essa caixa preta do Banco Central). Que coisa.

NO FRONT - O repórter Ruwer (assassinado pouco depois), nos anos 60, na Folha da Tarde de Walter Galvani, intercepta um avião na pista que iria para Porto Alegre, para entregar a matéria sobre uma rede de prostituição no Rio Grande do Sul. Ruwer foi com JB Scalco, o fotógrafo que morreu do coração quando fez parte mais tarde de outra reportagem de denúncia (Galvani, me refresca a memória!). Tínhamos, então, jornalismo. Foi na época em que entramos para a profissão. Na mesma época, abateu-se sobre nós o AI-5. Desse buraco negro ainda não saímos.

EXTRA: Reproduzo dois comentários a respeito deste item:

"NO FRONT-engano teu,o Scalco descobriu-se com uma doença cardíaca em 82,durante a cobertura da Copa.Ele chegou a operar mas teve uma parada cardíaca,entrou em coma e um mês depois faleceu.Eu ouço cada história sobre o modo como ele morreu!Uns dizem que foi assassinado pela polícia,outros que foi acidente de avião.Mas posso te garantir que foi uma longa doeça que o afetou(pericardite).Sou cunhada dele,por isso resolvi te escrever prá não ficar essa coisa de história mal contada.Obrigado pela tua atenção,RosiRosi Email 12.12.05 - 8:24 pm #

NO FRONT - fala sobre o Jornalista Edemar Ruwer, meu irmão. Estranha a morte dele e logo em seguida a forma que ocorreu a morte do assassino, com um tiro na nuca, praticado por um policial, da Delegacia que era chefiada por um Delegado, que em seguida foi transferido para o DOPS. Teria maiores dados? Obrigado por ter lembrado do Jornalista Edemar Ruwer.Renato Ruwer Email 10.12.08 - 11:29 pm # "

Resposta (Nei): Não tenho maiores dados. Só lembro do Ruwer na época em que ele trabalhava na equipe do Walter Galvani. Grande repórter, de uma estirpe que se extinguiu. Ou melhor, foi extinta.

RETORNO - O perigo que se corre cobrindo o furacão substitui o perigo real de desmontar as redes de prostituição que imperam no país.

23 de outubro de 2005

Diário da Fonte
BRASIL SOBERANO, PRESENTE

A lavada do voto Não no referendo é a manifestação livre do Brasil soberano, essa criatura histórica gerada pelo povo em armas por séculos e gerações. Não brinquem de plebiscito, o Brasil soberano sempre se manifestará. Foi assim nas consultas sobre presidencialismo e agora, neste referendo que deixa os apresentadores do Fantástico com cara de sabão. O programete dominical começou com longuíssima encheção de lingüiça de esportes radicais (que são o desprezo pela paisagem) exatamente porque achavam que estariam ocupados mentindo sobre armamentos e celebrando a vitória do Sim. O tiro saiu pela culatra. A vitória esmagadora desmascarou a sucessão de paga-paus globais, que compareceram em massa para atender a voz do patronato, interessada em expulsar a Taurus do Brasil (pois isso foi no fundo o que rolou) e implantar da austríaca Glock no nosso país (indústria de armas parceira da Globo na segurança privada). Um escândalo sem limites que tentou usar o voto para consolidar a safardagem que foi a campanha do desarmamento em que as pessoas, de boa fé, depositaram suas armas em troca de merrecas, para que muitas delas fossem depois, como saiu em denúncias na imprensa, desviadas (só as de boa qualidade) de volta para o crime.

BALA! - Não foi graças ao marketing, pois não existe mais nada inútil do que a publicidade safada que nos toma todo o tempo livre com asneiras. Não foi só para derrotar Lula, esse ser perigoso que encarnou a ditadura civil com seu séquito de horrores. Não foi porque temos povinho que não sabe votar, como dirão os pseudo corretos. Foi porque temos uma nação aqui, caralho, temos uma civilização, temos um território inviolável, temos fronteiras resguardadas por forças armadas e população, temos um país para viver e lutar. Não nos obriguem a depositar as armas para continuarem o saque sem fim e a violência. Não permitiremos, nós, o povo. É incrível como não acreditam na existência desse ser misterioso, o brasileiro. Como acham que esta terra é feita de alemães, italianos, japoneses ou gringos! Como acham que o que nos define é a mestiçagem! Não é não. Não somos cavalos para ter raça, temos meta-raça, como disse Gilberto Freyre, somos seres culturais e políticos com identidade nos gestos, na fala, no imaginário. É assim desde o início da História do Brasil. Somos identificados pelo sentimento de pertencer a um país. Isso é usado para patriotadas (que levam à ditadura) ou por mal intencionados disfarçados de revolucionários. Apátridas, entreguistas, posam suas fisionomias cool para dizerem o quanto são de Nova Iórrrrqui. Pois vão para lá, bushear. E corram, porque lá vem bala!

FORA! - Saiam de frente da câmaras artistas vendidos, que expressam convicções homogêneas, ditadas pelos interesses dos patrões da cultura. Nos deixem em paz, publicitários criminosos com suas campanhas mentirosas. Fora, políticos ladrões que levaram nas malas cheias de dinheiro as esperanças do povo e a desmoralização das lutas populares. Adeus direita, que por tantos séculos sugou o país de suas principais forças. Adeus, pseudo esquerda que tenta se reaprumar depois da grande cagada federal que é este governo. Chega, credores internacionais com suas cobiças e deboches. Sumam, malfeitores de todas as espécies, que roubam, estupram e matam. Queremos nos ver livre de vocês. Ou vocês desistem ou nós vamos aí pegar vocês. Agora já sabem. Em cada casa pode ter uma arma. Aqui ó, para vocês, como diria o Pasquim na época do Tarso de Castro.

GANHAMOS, PAI - Obrigado, pai, por ter me ensinado a atirar quando eu tinha apenas nove anos de idade. Não aprendi direito, mas isso não importa. Me aproximaste das armas porque eras um guerreiro que lutou o bom combate e sabias o quanto era valiosa aquela lição. Foste à luta para mudar o Brasil naquelas revoluções que os historiadores não sabem contar como foi ou o que significam. Obrigado por ter me dado de presente de aniversário meus dois revólveres de brinquedo, cheio de balas de plástico, que saltavam longe a cada tiro. Aprendi a me defender, a não deixar que se aproximem com más intenções. Ganhamos hoje, pai. O povo votou pelo Brasil soberano. Sei que ainda estás palmilhando aquelas calçadas largas, com teu terno de linho branco, teu cabelo puxado para trás, teu sapato branco e marrom no passo célebre de dez para as duas, carregando no bolso teu revólver trinta e dois. Todos te respeitavam, pai, e jamais puxaste uma arma em tempos de paz. Andavas armado porque era teu dever e teu direito. Sabiam que contigo ninguém se metia. Sinto falta de ti, pai. Ainda preciso aprender, a ser como tu, homem de fronteira, honrado guardião do país que amaste semeando vidas e filhos como um pastor seguro e um pescador de mão cheia.

RETORNO - 1. A vitória esmagadora do Não foi prevista aqui no Diário da Fonte no dia 11 de outubro, quase duas semanas antes da votação: "Ora, Chico Buarque, Maitê Proença et caterva: vão plantar batatas na estufa do autoritarismo. E preparem-se, porque o Não vai ganhar. Preparem-se para um resultado acachapante, idêntico ao de 1950, quando Getúlio Vargas, contra todos os prognósticos, deu uma lavada em todo mundo. Não brinquem com o povo do Brasil soberano, o mesmo que derrotou em dois plebiscitos, o parlamentarismo, pois sabe o quanto o Parlamento pode significar ditadura em nosso país e quanto um só presidente pode mudar tudo, para melhor. Arrumem bem suas caras lambidas e depois da derrota não me venham com a conversa de que este povinho não sabe votar. O povo vai votar em massa no Não. Vai todo mundo votar 1, Não ao desarmamento e os artistas de plástico vão ficar chupando cana". 2. E antes ainda, quando o Sim liderava as pesquisas, coloquei um comentário no Comunique-se dizendo que o Não ia ganhar.3. Cicero Galeno Lopes me alerta sobre a Carta a Fernanda Montenegro, escrita por um criador de ovelhas do Rio Grande do Sul. Vale a pena ler.

Diário da Fonte
LEE OSWALD


LEE OSWALD

Nei Duclós

Lee Oswald grita com as mãos
fechando o corpo
para não morrer
com seu segredo
enquanto o assassino faz pose
de costas
para meus olhos parados

Lee Oswald perde a batalha
da sua vida
com uma câmara apontada
contra o estômago
Com um relógio preso
à sua queda
e um rifle oculto, tão inútil
quanto a verdade

RETORNO - Poema publicado na página 40 do livro No Mar, Veremos (Editora Globo, 2001)sobre a foto do assassinato de Lee Oswald por Jack Rubin.

22 de outubro de 2005

Diário da Fonte
Confisco de direitos


Prometi que não ia entrar mais na campanha. Cumpro. E reproduzo não um texto de campanha, mas a expressão de uma lucidez casada com a experiência. Saiu hoje na Folha e fui alertado pelo Blogstraquis, do Mestre Moacir Japiassu.


Confisco de direitos
FLAVIO FLORES DA CUNHA BIERRENBACH
(In "Tendências/debates" da Folha: 22/10/2005)

Na América Latina, não faz muito tempo, cerca de 30 anos, o capitalismo selvagem precisava de uma ditadura em cada país para fazer o trabalho sujo. Hoje, não. O neoliberalismo se encarrega do serviço de uma forma "clean", com lençóis e travesseiros, com eleições e plebiscitos.
Para tornar o mundo mais seguro para as corporações transnacionais, a partir de 1977 foi gestada na famosa Comissão Trilateral a doutrina do desarmamento das populações dos países do Terceiro Mundo, agora não mais chamados de periféricos ou subdesenvolvidos, mas "em vias de desenvolvimento", eufemismo que equivale a uma promessa de eternidade.
Uma parte da esquerda engoliu a isca e o anzol. Paciência, dizem. A globalização e a interdependência são fatalidades inexoráveis e, afinal, ninguém segura este país.
À míngua de uma política consistente de segurança pública para o Brasil, alguns políticos aderiram em peso ao arrastão ideológico de ONGs que utilizam a paranóia, a propaganda e sobretudo a mentira como técnicas de profanação da vontade coletiva.
Não deu certo. A despeito da Rede Globo e de seus múltiplos instrumentos, a campanha do desarmamento -logo também encampada pelo PT- foi revelando, em retrato de corpo inteiro, sua espantosa mediocridade. Seja pela futilidade das medidas que propõe para reduzir as taxas de violência urbana, seja pela fragilidade dos dados apresentados e pela indigência dos respectivos argumentos. Confirmou-se ao longo da campanha a certeza de que a política de desarmamento proposta é inconstitucional, irrazoável, demagógica e totalitária, incompatível com o Estado democrático de Direito.
No fundo, o que eles querem mesmo é acabar com sua aposentadoria, aumentar os impostos, censurar o seu pensamento e, agora, reduzir o seu coeficiente de liberdade e suprimir o seu direito de defesa, que é o primeiro e o mais antigo de todos os direitos humanos.
Desde a célebre Declaração da Virginia, de 1776, os cidadãos tomaram consciência de que são titulares de quatro direitos fundamentais: o direito à vida, o direito à liberdade, o direito à busca da felicidade e o direito de resistência. Como pode o cidadão desarmado defender sua vida e sua liberdade? Como pode almejar a felicidade, que, para a imensa maioria dos seres humanos, significa apenas ter uma família, uma casa, um salário? Como resistir ao Estado totalitário, à opressão, à prepotência?
A primeira lei de controle total de armas de fogo surgiu na França ocupada, em 1940, logo depois da invasão alemã, no governo títere de Pétain e Laval. Se a França houvesse obedecido à lei iníqua, não teria havido a Resistência.
Custa a crer que, mais de meio século depois, o Brasil esteja correndo o risco de imitar os nazistas. E nem é para controlar a população de um país ocupado. É para dominar o próprio povo. Com uma legislação dessas, o pracinha brasileiro que morreu lá na Itália morreu mesmo em vão.
É curioso que os arautos da campanha do desarmamento não proponham um país sem crimes, mas apenas um país sem armas. Porém, não escondem suas intenções quando afirmam que "desarmar é apenas o começo". Pois bem, qual é o fim?
O fim é acabar com a segurança pública e implantar a segurança privada. É demolir a indústria nacional, que permitiu a auto-suficiência das Forças Armadas. E, em uma etapa seguinte, é o desmanche das Forças Armadas e a liquidação do Estado nacional.
Nenhum governo tem a prerrogativa de interferir na esfera privada do cidadão para transformar um direito em crime. Sobretudo ao arrepio da Constituição, dos direitos humanos e de usos e costumes milenares que asseguram o sagrado direito de defesa, a igualdade de todos perante a lei e a incolumidade da pessoa e protegem a casa como abrigo inviolável do cidadão.
O governo é apenas preposto do povo, e não o contrário. As armas que o governo tem pertencem ao povo. É o povo que dá às Forças Armadas e à polícia as armas com que devem defendê-lo e proteger a pátria. O povo é o mandante, o governo é o mandatário. O governo não tem o direito de tirar do povo as mesmas armas que o povo lhe deu. Enquanto um agente público tiver legitimidade para ter e portar armas, o cidadão comum também terá.
O primeiro passo das ditaduras para transformar um cidadão em vassalo é o confisco de suas armas de defesa. Negar o acesso legal, a posse e o porte significam formas oblíquas de confisco. Um país -qualquer país- em que todas as armas se encontram apenas nas mãos da polícia e dos criminosos não é um país democrático.
Não permita que isso aconteça no nosso país. Não abra mão de seu direito de defender sua família, sua casa, seu salário, sua vida, sua pátria.

Flavio Flores da Cunha Bierrenbach, 65, bacharel em direito pela USP, é ministro do Superior Tribunal Militar. Foi vereador, deputado estadual e deputado federal, todos pelo MDB-SP.

21 de outubro de 2005

Diário da Fonte
TARSO DE CASTRO NA CINTURA




Toda vez que falam em jornalismo, eu puxo o Tarso de Castro que uso na cintura. Mais precisamente, meu texto Cinco Vezes Tarso de Castro, que está há anos no site e me aproximou de pessoas chaves da vida sem igual do jornalista maior: Miguel Kozma, amigo desde a adolescência em Passo Fundo, e uma das esposas Gilda Barbosa, mãe de João Vicente, que leram essa pequena crônica que ajudou a resgatar aquele que semeou jornais até morrer junto com o Brasil. Agora disponho de outra arma, mais poderosa, o livro lançado ontem na Livraria Cultura de São Paulo pelo autor Tom Cardoso, "75 kg de músculos e fúria - Tarso de Castro, a vida de um dos mais polêmicos jornalistas brasileiros" (Editora Planeta, 268 páginas). Uma obra obrigatória, imprescindível, reveladora, com detalhes impactantes, que não só emociona e informa, como dá raiva, pois vemos aí o quanto perdemos e como as redações brasileiras foram destruídas em favor do que somos obrigados a ler todos os dias. Conheço Tom, irmão de Denis, desde quando eram muito meninos, na casa de meu amigo Jary Cardoso, jornalista com quem trabalhei pela primeira vez na redação da Zero Hora Dominical em 1969/70 e que se emocionou com o texto que fiz sobre seu editor em tantos jornais, resgate que ajudou a romper a barreira de silêncio (junto com a antologia organizada por Alex Solnik, "Pai solteiro e outras histórias") que caiu pesado sobre Tarso depois que ele se foi, desencantado com tudo, vítima não dos seus excessos, que o mantinham vivo, mas da grande tragédia que se abateu sobre a nação, que nos transformou em zumbis.

FUNDAÇÕES - Quando meu pai se convenceu que eu ia mesmo abraçar esta profissão, me disse: Quer ser jornalista? Então funda o teu jornal. Jamais segui o conselho, com exceção deste Diário da Fonte, minha única criação completa e verdadeira desde o dia em que entrei para esta vida sem volta. Tarso criou-se num jornal, pois era filho de Mucio de Castro, dono de O Nacional de Passo Fundo. Começou aos 13 anos, nas oficinas (exigência do pai durão). Quando chegou em Porto Alegre, como conta Tom, entrou para a Ultima Hora de Samuel Wainer, e lá um dia usou seu Taurus em plena campanha da Legalidade, em 1961. Seu revólver foi um dos três mil que Leonel Brizola pegou da Taurus para abortar um golpe de estado. De lá Tarso foi para o Rio de Janeiro, onde conquistou as pessoas com sua experiência de veterano e seu irresistível carisma. O livro de Tom faz justiça a Tarso, fundador do Pasquim, a grande revolução do jornalismo brasileiro, de onde foi expulso por traidores, não só em vida, mas principalmente depois de morto. Quando publiquei meu pequeno texto, era certeza de que o Pasquim fora obra de Millor , Ziraldo e Jaguar, o que é uma mentira inominável. O que eu escrevi sobre minha amizade com Tarso foi destacado pela professora Sonia Bertol, da Universidade de Passo Fundo, que fez sua tese sobre Tarso e me convocou para dar meu depoimento. O livro de Tom vai fundo e conta a trajetória dessa personalidade chave do jornalismo brasileiro com limpeza e grandeza, contando com a diversidade das fontes, nem tão extensa como deveria, por falta exatamente desse debruçar sobre uma vida que merece muito mais do que alguns livros. É necessário publicar todos os textos de Tarso e fazer uma edição caprichada, em fac-símile, dos principais trabalhos seus que contribuíram para marcar para sempre nossa profissão.

MARCA - Vejam a lista de jornais que ele fundou: O Panfleto, jornal trabalhista de grande repercussão nacional (eu o lia em Uruguaiana), que fez História; O Pasquim, o insuperável tablóide que chegou a vender mais de 200 mil exemplares por semana; JA - Jornal de Amenidades, a primeira publicação voltada para o consumidor; Folhetim, o jornal encartado aos domingos na Folha de São Paulo, o que dobrava a tiragem do jornal, que passou a vender 500 mil exemplares toda vez que saía; Enfim, o jornal da Anistia; Careta, resgate da célebre revista da primeira metade do século 20 e que foi fechada, segundo Tarso me disse no restaurante Rodeio (versão que está no livro), por um acordo com Paulo Maluf; O Nacional, título que ele herdou da família e que vendia 70 mil exemplares por semana. Tarso mudou a Ilustrada, da Folha (onde trabalhei, na época dele), transformando o suplemento em algo vivo e imperdível, coisa que não foi seguida por quem o demitiu, Otavio frias Filho; escreveu colunas antológicas, desde A Hora H, da Ultima Hora (que conquistou Samuel Wainer), O Pau do Editor (em O Nacional), as crônicas na Ilustrada quando não era mais editor e a da Folha da Tarde, que atraiu milhares de novos leitores para este jornal do grupo Folha. Por que foi soterrado? Porque ele contraria tudo o que se faz hoje em jornalismo. Tarso mesmo denuncia o país que um dia foi Brasil (quando Glauber morreu, ou foi assassinado, segundo sua versão) e a expulsão do estilo e o talento das redações, ação da qual foi sua principal vítima.

ALTURAS - Generoso, emocionado, eficiente, agitador, texto maravilhoso: tudo faz de Tarso de Castro a personalidade maior do jornalismo brasileiro, mais que todos os seus pares. Incomodava como ninguém. Foi amigo de meio mundo e era admirado pelas grandes personalidades do Brasil soberano, de Sergio Buarque de Holanda a Tom Jobim. Ter trabalhado com ele foi mais do que um privilégio, foi uma condecoração. O livro de Tom se lê de uma sentada e deve ser elevado às alturas que merece. É o livro do ano. Isso sim não se pode perder. Compre imediatamente e leia. E quando falarem para você sobre jornalismo, puxe o seu Tarso de Castro. Ele precisa ser usado na cintura, carregado.

RETORNO - Não pude ir pessoalmente abraçá-lo no seu lançamento, Tom, mas deixo aqui minha homenagem e o agradecimento por ter sido citado três vezes no teu maravilhoso livro. É muito para quem fez tão pouco pelo jornalismo. O que faço aqui no DF é totalmente inspirado em Tarso, nossa lição de vida permanente e que nos faz falta, todos os dias.

20 de outubro de 2005

Diário da Fonte
LUA, VÉSPERA DE PRAIA




No horizonte, à esquerda, massa compacta de nuvens nos lembra o quanto choveu nesta primavera. Mas acima do teto, fiapos de algodão são incendiados pela lua quase cheia. As estrelas são diamantes fixos e espaçados, que o perfil de uma menina transparente, alta como o céu, recolhe numa cesta de vime. O lento rolar das pequenas nuvens fazem uma das estrelas vagar como um asteróide, um satélite, uma nave. Depois, na alta madrugada, saio para ver o cachorro que late. A luz intensa debate-se na varanda. Tudo está quieto no território das corujas. O manto quase azul promete mar na manhã seguinte. Amanheço acordado na vasta faixa de areia e lá está mar, claro, manso, tépido. Ao longe, contei 18 barcos de pesca, em prontidão diante dos cardumes. Tudo começa a fazer sentido depois de tanto inverno, tanta luta e tanta certeza de não pertencer a nada, a não ser a esta paisagem nem sempre amável, mas que sabe mostrar seus encantos quando o mesmo equilíbrio que mantém a lua no céu espalha-se pelos morros verdes.

LUGAR - Não pertenço à literatura, ocupada por tantos luminares. Não pertenço à política, com tanta gente se manifestando. Não pertenço ao sul ou ao norte, exilado do ambiente que me encara. Não pertenço às gentes, migrante eterno no país em obras. Não pertenço à rede, cheia de tudo e todos. Nenhuma profissão me comove, a não ser esse ofício com palavras, gratuito como um pedaço de pão abandonado. Não pertenço aos sonhos que se realizam, quando então emergem as caras satisfeitas dos bem resolvidos. Nem aos pesadelos definidos em bastidores escuros. Dizem que o planeta está mais quente, mas só vi frio nos últimos meses. Que existe seca, mas a água não parou de correr. Não faço parte da metereologia, do noticiário, dos rankings, das opiniões, das posições, dos esgares, dos luxos e das misérias. Alguém me fala como fui há tempos e não me reconheço. Nada sei de mim e minha biografia, se é que existe uma. Pertenço apenas à memória e ao presente pontuado de dias e noites. Tardes que se derramam de potes imaginários, amargos momentos de desesperança, vestes gastas, cabeça em frangalhos. Textos crônicos que me servem de sentinela. Acenos, raros, na multidão com pressa. Pertenço àquela calçada varrida pelas mulheres antigas, pela terra lavada de chuva, pelo rio que desce e sobe conforme a estação que se avizinha. Faço parte desse território sem história, onde medra o capim ralo, a flor precária, a vida escassa. Estou por toda a parte porque nenhum lugar me recebe.

POESIA - Não há crédito, há nação de menos, há medo demais. Desfilamos diante do nada como cidadãos sem rosto. Mas há poesia quando a criança se deslumbra com o vôo das gaivotas. Há o poema, que vem em socorro do que perdemos. Há livros que chegam, companheiros de uma viagem absurda. Algumas mensagens, sinais de vida longa, que jamais se cumpre. Quem somos nós, criaturas que Deus acolhe em seu regaço e atende súplicas e preces para continuar o caminho? Não fazemos parte do calendário, nem dos eventos, nem das homenagens. Passamos pela terra como o vento. O tempo enfim se mostra, com seu acervo de possibilidades. Colocamos a couraça e vamos para o trabalho. Lá, desistimos de ser o que plantamos. Viramos espigas ao sol, que deita sementes sem nenhuma proteção. Códigos passam em vão por nossas mãos em brasa. Ninguém nos conhece, nós que arrumamos espaço nestes dois séculos que nos tingem de algo jamais decifrado. Vivo o minuto como quem recebe uma bênção. Há barulho de cascos, espadas retinindo em noite de lua quase cheia. O cachorro late para o infinito. Abro a porta e vejo. Deus está atento e dorme. O luar é seu espelho. Quando some, o mar assoma sua imensidão sagrada. Mergulho contra a onda e o corpo se move. Volto como um filho à casa materna que nos recolhe.

19 de outubro de 2005

Diário da Fonte
SELETA DO VOTO SOBERANO



Votar Não no próximo domingo é uma questão de sobrevivência nacional. Nesta edição, coloco alguns trechos do que está sendo difundido na Internet. Um é o artigo do blog do jornalista gaúcho Diego Casagrande, de autoria Denis Rosenfeld. E outro é uma entrevista de Durval Antunes Nery, general-de-brigada da reserva do Exército militar, publicada na Tribuna da Imprensa e que denuncia a entrega da Amazônia. Muito longe das teorias de conspiração, ou do notório fazer o "jogo da direita" (slogan do voto de cabresto) precisamos tomar conhecimento do grande perigo que corremos com o atual governo.E longe também de passar cheque em branco para tudo o que está sendo dito a favor do Não, precisamos saber o que personalidades públicas importantes dizem sobre o referendo. Rosenfeld aborda de um jeito que me diz respeito, pois fui criado no meio de armas e ninguém jamais roubou nada nem se machucou (hoje não uso nada). E o general interessa pelo que os militares pensam. Vamos aos textos, dos quais tiro alguns parágrafos.

MATURIDADE GAÚCHA
por Denis Rosenfield, filósofo

"O maciço apoio dos gaúchos ao Vote Não à proibição da comercialização de armas de fogo e de munição, segundo pesquisa CEPA-UFRGS publicada pelo jornal Zero Hora em 17 de outubro, mostra uma maturidade da sociedade do Rio Grande do Sul, que se tornou pouco propícia a embarcar em mais uma fraude eleitoral. (...) Há, evidentemente, razões históricas para a postura dos gaúchos. Trata-se de um estado fronteiriço, em que a cultura das armas sempre foi um valor prezado. Valor prezado por pessoas acostumadas às lides guerreiras, valor prezado por pessoas acostumadas a se defenderem por si mesmas, valor prezado por pessoas que necessitavam e necessitam se defender contra invasões de propriedades, roubo e abigeato (n. da r.: roubo de gado). Uma tal cultura não poderia deixar de produzir um senso da responsabilidade individual, da liberdade pessoal, de decisão no que diz respeito às ações empreendidas por cada um.

Considerando esse marco cultural, há perguntas e questionamentos que não poderiam deixar de ser suscitados, frente a uma iniciativa que procura não apenas desarmar os cidadãos como proibir a compra de armas e munições. Caso o voto do sim passasse, quem defenderia as propriedades contra as invasões do MST, que continua a agir impunemente, utilizando-se inclusive de armas? Quem poderia conter o abigeato senão os próprios proprietários fazendo uso de armas e utilizando-se dos tiros de advertência? Quem defenderá uma propriedade rural, isolada, quando ladrões procurarão nela entrar?

(...) Se o Estado, incapaz de preencher as suas funções, se arvora ainda em agente que procura proibir a venda de armas e munições, como se soubesse o que é o bem de todos, ele termina por destituir o cidadão da sua capacidade de decidir por si mesmo. Os gaúchos não estão deixando se enganar. Eles estão votando pelo não!"

PELAS ARMAS, AMAZÔNIA E PETRÓLEO
Rodrigo Otávio
(trechos da entrevista publicada na Tribuna da Imprensa)

"Durval Antunes Nery, general-de-brigada da reserva do Exército e candidato à presidência da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (Adesg), tem mais de 30 mil horas vividas na Amazônia e em viagens por todo o Brasil. É com esta experiência que conclama a população, principalmente os mais jovens, a defender a soberania nacional. O ex-páraquedista vê neste outubro uma ótima oportunidade para a população exercer essa defesa da maneira mais simples e democrática possível. Seja no referendo que decidirá sobre a proibição da venda de armas de fogo, seja na abordagem a parlamentares e autoridades pedindo para que impeçam mais um leilão de reservas petrolíferas. Para o general Nery, esses dois casos se completam e são exemplo de como o País vem entregando suas riquezas de forma silenciosa. Se o comércio de armas for proibido, a população civil da selva amazônica desfalcará os planos do Exército de uma ampla defesa territorial. Com a venda das reservas de petróleo e a decorrente opção dos novos donos de negociarem ou não com o Brasil, os reflexos disto podem vir no simples ato de encher o tanque do carro.

P - Como a proibição da venda de armas no Brasil afeta a Amazônia?
R - O povo brasileiro vai participar desse referendo para saber se concorda ou não com uma decisão já tomada. Isso tem reflexo sobre a Amazônia. Lá, temos uma população miscigenada, com a maior incidência do índio. Estão lá numa distância muito grande do poder, principalmente de Brasília. Às vezes, estão há dias de barco, de canoa, do município, da cidade, do primeiro médico, que geralmente é de uma unidade militar. Têm o direito de defesa, um direito constitucional. E se forem agredidos? Que providência têm que tomar? Essa lei de desarmamento está proibindo a comercialização da munição e da arma. Quer dizer: as elites brasileiras estarão protegidas. Porque os políticos, as autoridades, têm dinheiro para pagar segurança e carros blindados. E o povo? Não tem direito a nada. Se o Estado não pode oferecer segurança ao cidadão, é claro que ele sabe que tem que depender de sua auto-defesa. Lá no meio da selva, o caboclo com a família vê a onça rondando a casa, vai chamar autoridade para se defender? Quanto tempo vai levar? Tem que ter a espingarda em casa para defender a família.

P - O senhor então é contra a proibição de venda de armas de fogo e munição?
R - Contra, não há dúvida. Porque afeta a soberania. No caso da Amazônia: o Exército está treinando há 10 anos a "estratégia da resistência". Essa estratégia diz: "Defender a Amazônia contra a invasão de um Exército melhor equipado e superior em efetivo". Implica em utilizar armas curtas, como revólver, pistola, fuzil e metralhadora, e em ter a população armada para a defesa do território. Quer dizer: vamos ter que contar, na defesa da Amazônia, com a população existente. Esses homens têm que estar armados. É isso que representa esse referendo. Se o brasileiro votar "sim", vai entregar a Amazônia. Isto é um crime contra a soberania!"

RETORNO - Daqui a pouco, voltamos às crônicas, à cultura, aos poemas. O referendo está tomando espaço demais.

18 de outubro de 2005

Diário da Fonte
O PRECÁRIO EQUILÍBRIO



Assumir princípios e valores não significa entregar-se para a direita. No fundo, se trata de uma luta contra o obscurantismo. O posicionamento ideológico está completamente contaminado pela gangorra dos partidos no poder e a cidadania fica à mercê de argumentações variadas, que se diferenciam e se confundem, e principalmente nos cercam com suas garras venenosas. Manter o espírito livre enquanto rola pela internet manifestações e notícias de todas as fontes, é um trabalho duro a que nos submetemos diariamente. Dois destaques dos últimos dias revelam o precário equilíbrio em que estamos metidos: a entrevista falsa de um pretenso traficante a favor do Sim, e os detalhes de uma possível guerra climática que estaria sendo exercida pelos Estados Unidos. O excesso de doenças do clima tem colocado dúvidas entre os especialistas. O que estaria acontecendo com o planeta? Pelo que eu recebi, os aprendizes de feiticeiro estariam desencadeando secas, terremotos e furacões para desestabilizar países suspeitos ou inimigos e muitas vezes essas ações se voltam contra o país de onde eles estariam desencadeando a fúria dos elementos. Paranóia, mistificação? Dêem uma olhada no que eu recebi, que eu repasso sem formar posição.

A NOVA ARMA DE DESTRUIÇÃO EM MASSA DOS EUA:
A MANIPULAÇÃO DO LIMA COM FINS MILITARES

Por: Michael Chossudovsky

"A atenção que o Departamento de Defesa Norte-americano está orientando ao arsenal de armas climáticas todavia não é objeto de debate por parte da opinião pública internacional. E se é certo que o firme desprezo por parte da administraçào Bush em ratificar o Protocolo de Kioto tem sido criticado em todo o mundo, a verdade é que o tema da manipulação do clima com fins militares não tem sido suficientemente analisado, apesar de constituir hoje em dia uma verdadeira arma de destruição em massa.

A força aérea norte-americana tem capacidade de manipular o clima, tanto para fins pacíficos como para fins militares. Isto inclui a capacidade de provocar inundações, furacões e secas. Nos últimos anos o Departamento de Defesa reservou grandes quantidades monetárias para o desenvolvimento e aperfeiçoamento desses sistemas.

'A modificação do clima formará parte da segurança doméstica e internacional e poderá ser usada unilateralmente. A habilidade para gerar precipitações, neve, tormentas ou modificar o espaço exterior...ou a produção de climas artificiais, tudo isso constitui parte de um conjunto de tecnologias que podem incrementar o conhecimento tecnológico, a riqueza e o poder dos Estados Unidos para degradar a seus adversários'(US Air Force, enfasis added. Air University of the Use Air Force, AF 2025 final report).

Não é necessário dizer que o tema é tabú. Os analistas militares e os meteorólogos se mantém mudos. Se fala muito do aquecimento globar do planeta, porém, nenhuma palavra sobre o principal programa norte-americano de guerra climática. The High Frequency Active Auroral Reserch Progrom (HAARP), com sede em Gokona, Alaska, é gerado conjuntamente pela Força Aérea e a Marinha de Guerra.

Esse programa existe desde 1992. É parte de uma nova geração de armas concebidas no âmbito da iniciativa de defesa estratégica, da qual é responsável a Force Reserch Laboratory's Space Vehicles Drectorate. Trata-se de um conjunto de antenas com capacidade de criar modificações na ionosfera (o nível superior da atmosfera).

Niccholas Begich, ativista contra o programa HAARP o descreve: É uma superpoderosa tecnologia de emissão de gases radioativos que elevam as áreas da ionosfera concentrando um gás que esquenta certas áreas...

Ondas eletromagnéticas surgem na terra e afetam tudo, seres vivos ou não (Global Reserch).

O cientista de renome mundial, Dr. Rosali Berthel se refere ao HAARP como um gigante aquecedor que pode causar importantes alterações na ionosfera. Para Richard Willians, físico e consultor do David Sarnoff Laboratory em Princeton, 'HAARP é um ato de barbárie; os efeitos sob seu uso podem prolongar-se por muitos anos...além disso, o HAARP serve para alterar o sistema de comunicações e de radar do inimigo, pode ainda provocar apagões em regiões inteiras, interrompendo o fluxo de corrente de energia elétrica'.

A manipulação climática, segundo os observadores, pode ser uma arma preventiva por excelência. Pode ser utilizada tanto em países inimigos como contra países amigos sem seu consentimento. Por isso, quem controle esse conhecimento técnico (como realizar um ataque climático?) poderia usar essa informação privilegiada para obter proveito a nível econômico e financeiro."

16 de outubro de 2005

Diário da Fonte
O FIM DO SILÊNCIO



Um dos muitos crimes da ditadura civil, regime criado a partir do descarte dos militares e a consolidação dos principais itens do regime autoritário anterior (1964-85) foi permitir a campanha sistemática contra as Forças Armadas. Quem estuda História do Brasil, sabe: não se volta as costas para os militares. Não se governa à revelia da farda. Não se faz uma democracia sem que todas as instituições estejam presentes e ativas no debate político, e isso inclui, claro, as Forças Armadas.

O que se viu foi a abordagem obscurantista, colocando toda a culpa da ditadura nos militares, o que é de uma injustiça sem fim, pois fomos governados também por civis (que foram responsáveis diretos pelo golpe de 64), muitos de direita ou extrema direita. Governados na economia, nas relações internacionais, nos projetos importantes. Isso não elimina a participação militar, mas é bom lembrar que toda comunidade não pode ser vista só por um lado, já que em qualquer grupo humano existe diversidade e contradições. Esse é um tema delicado, pois a união dentro da caserna é um feito histórico assumido com orgulho. Mas é natural que existam divisões e pessoas que pensam diferente dentro dos quartéis.

Agora temos uma crise descomunal, fruto de uma irresponsabilidade política tremenda, convivendo com a falta de consideração com o papel dos militares. O fato de cumprirem com suas obrigações constitucionais não significa calar-se. Os militares brasileiros são homens de palavra, pois fazem exatamente o que disseram, ao não interferirem no processo político depois que dele se retiraram. Por isso, o manifesto lançado ontem é de extrema importância. Os militares gaúchos se posicionam contra a gestão da crise e a favor do Não no referendo, mas o texto é muito mais do que isso: é a palavra que vem de uma instituição que está no topo das preferências da população. Como se diz hoje a torto e a direito: prestem atenção (o texto foi tirado do site: http://www.diegocasagrande.com.br).


MANIFESTO DOS MILITARES GAÚCHOS

"A Federação Estadual da Família Militar do Rio Grande do Sul - FAMIL//RS, entidade que congrega, em nosso Estado, militares (ativa, reserva e reformados) da Marinha, Exército, Aeronáutica, Brigada Militar, ex-combatentes e pensionistas das diferentes Forças, não pode mais silenciar diante da crise moral que assola o País. O momento político que vivemos é deveras preocupante. Diariamente tomamos conhecimento de novas atividades desonestas praticadas pelo interminável préstito de corruptos que apareceu logo após o levantamento de uma miserável propina embolsada com tremenda desfaçatez e assistida por todos telespectadores brasileiros. Graças à imprensa, o Brasil todo tem acompanhado estarrecido os crimes praticados contra o erário. As somas apresentadas são enormes e se não fossem desviadas para atender interesses pessoais poderiam facilmente resolver inúmeros problemas nacionais.

Com a criação das CPMI e a divulgação de suas atividades passamos a achar que, desta vez, o Brasil finalmente seria "passado a limpo", entretanto, esta sensação de pureza, de honestidade, de recuperação, foi arrefecendo, particularmente depois que os parlamentares envolvidos com a corrupção foram considerados como errados e não criminosos.

Recentemente, parte do Parlamento se rendeu a concessões e atendeu às pretensões governamentais O patrimônio nacional está sendo dilapidado. A Amazônia está cada vez mais exposta à cobiça internacional. Temos feito doações e concessões magnânimas sem ter cacife para tal e em detrimento da solução de nossos problemas intestinos. Nossas Forças Armadas foram totalmente esquecidas. Seu material está virando sucata e o pessoal, seu maior patrimônio, sente-se coagido com movimentos e procedimentos que parecem buscar desestimulá-lo. Além disso está sendo desprezado, iludido e covardemente achincalhado. Quem vai defender nosso vasto e ambicionado território? Enfim, a situação é alarmante, particularmente se considerarmos a verdadeira abulia que tomou conta da nação que tinha esperança de melhores condições de vida, protegida por uma aura de honestidade e respeitabilidade que lhe fora "velhacamente" oferecida.

A FAMIL/RS, está atenta ao que ocorre no cenário nacional e concita seu público a mudar e consertar pelo voto as distorções e aberrações atuais. Vamos começar agora, no próximo dia 23, impedindo que tirem mais um direito do cidadão de bem brasileiro. Não há, por parte da FAMIL/RS quaisquer vinculações Partidárias e a nossa Fé, a nossa Dedicação, o nosso Compromisso é com o BRASIL.

Edu Campelo de Castro Lucas Cel R/1 - Cav.
Presidente da FAMIL/RS."

RETORNO - Urariano Mota reiventa a reportagem cultural, misturando crítica, informação, humor e crônica em vários textos, notadamente o que está no ar no La Insignia, As caras da Coluna Social. Um soco contra a desfaçatez, a indiferença e o deboche da superconcentração de renda no país sem soberania.

15 de outubro de 2005

Diário da Fonte
CARNE PARA OS BRASILEIROS




Enquanto as bochechas estrangeiras ficam coradas com a carne brasileira, aqui temos uma população desnutrida, sem acesso à carne de primeira que custa a partir de sete reais o quilo, alcançando 15 ou 20 reais se for picanha ou filé mignon. Com a crise da aftosa, provocada, ao que parece, pelo contrabando de carne com o Paraguai, a carne esnobada pelos outros países vai ser despejada no mercado interno. Os preços? Talvez continuem na mesma, pois precisamos subsidiar políticas publicas voltadas para povos adventícios. É hora de reler os clássicos. Celso Furtado ou Joseph Love (autor de "O regionalismo gaúcho e as origens da revolução de trinta") explicam como essa dinâmica, mercado interno x mercado externo, pautou a economia e a política brasileira no século passado. Venceu a opção exportadora, que construiu ferrovias e estradas para o escoamento, e acabou entregando a soberania. No Google, há imenso conteúdo sobre esse assunto, com os grandes autores sendo analisados por professores eminentes. O que impressiona são os números revelados pela atual crise: faturamos bilhões exportando proteína. Temos de sobra, mas o que o povo come é carboidrato. Subsídios atingem lavouras de frutas, que são empacotadas para o Exterior. Que país é este que volta as costas para o seu povo? Como podemos ser celeiro do mundo se estamos favelizados? E o pior é que todos acham normal. Mas essa crítica é considerada retrocesso. Precisamos avançar, rumo à explosão social.

SAGARANA - Está no ar a edição especial do quinto aniversário da mais importante e melhor revista cultural da Internet, a Sagarana, editada pelo meu amigo Julio César Monteiro Martins, escritor de primeira água, que conquistou seu espaço na Itália, onde é festejado autor e importante professor de narrativa. Damos a palavra a Julio: "Caros amigos: é com satisfação que anunciamos a presença on-line, a partir de hoje, do n° 21 da revista Sagarana (em língua italiana). Este é o número especial do 5° aniversário da revista, e para comemorá-lo realizamos muitas inovações gráficas que fazem a revista Sagarana ainda mais bonita, com maior legibilidade e abertura mais rápida das suas páginas. Neste mesmo endereço é possível ler os textos atualizados da seção Il Direttore, con o conto inédito Pomeriggio a casa, e na seção Scuola / Scrittori migranti as atas do 5° Seminário italiano dos escritores da migração. Esperamos que os ensaios, os contos, as poesias, e os trechos de romances selezionados possam oferecer-lhes muitas horas de agradável leitura". Julio é um autor que nos faz falta e que a Italia, com sua sabedoria, soube receber como um dos seus grandes escritores. Ele agora publica diretamente no italiano, depois de tormentosa vida literária no Brasil, quando enfrentou as feras e matou um leão por dia. Julio precisa ser lido não apenas como escritor, mas como editor e sua Sagarana deve estar entre os favoritos de todos. Fui seu primeiro prefaciador, quando estreou com seu magnífico livro de contos, Torpalium. Hoje ele é responsável por enorme bibliografia, toda uma vida dedicada à arte maior que é a literatura.

JORNAL DE POESIA - O poeta Soares Feitosa (esses brasileiros maravilhosos do Nordeste, e eu que não conheço o Nordeste!) coloca três poemas meus, novos, no seu imprescindível Jornal de Poesia, além de começar a publicar minha pequena, mas significativa fortuna crítica. No topo dos destaques do JP, Mario Chamie apresenta No Mar, Veremos, meu livro lançado em 2001 pela Editora Globo, que meses atrás me avisou que ia repassar o encalhe pelo melhor preço da praça. O livro não mereceu sequer uma nota na grande imprensa, com exceção da Istoé. É assim que vivemos, neste país exportador. Mas não me importo tanto. Um dos poemas novos, que os leitores do DF já conhecem, O rio não morre, foi enviado para o genial Zé Gomes, que já musicou dois poemas meus, Minuano ( de No meio da rua) e No mar, veremos, que na sua melodia e voz se transformou num épico. Em Minuano digo: O vento é uma pedra polar/ que põe o campo de cabelo branco/ e acende meu corpo tropical/ O pampa não sonha quando balança/ ao som do minuano no varal/ mas meu coração se lança contra o tempo mau/ Armo as velas neste vendaval.

RETORNO - Meu poema Lição de travessia, publicado no meu livro de estréia Outubro, traduzido este ano pela poeta Flavia Rocha com o título de Crossing lesson e publicado na edição número 12 de revista novaiorquina Rattapallax, foi considerado um dos favoritos de 2005 pelo poeta e crítico americano Jordan Davis. Jornalista cuiltural da pesada e blogueiro, Davis trabalha pela inclusão literária. Publicou antologias como "Free Radicals: American Poets Before Their First Books" e participou da "Six American Poets: A Danish Anthology". O livro Outubro jamais teve uma segunda edição.

14 de outubro de 2005

Diário da Fonte
O CAOS ANTES E DEPOIS DA FESTA

A situação atual do Brasil é um monstro que não se alimenta com biscoito recheado. Não adianta colocar no colo a menina que teve sua cadeira de rodas quebrada pela barbárie e prometer uma camiseta do Ronaldo de presente. Não adianta fazer clipezinho com musiquinha sobre nossa classificação para a Copa. Não adianta passar uma borracha sobre o caos no treino da seleção em Belém. Um dia depois da festa contra a Venezuela, a Vila Belmiro explodiu num Corinthians e Santos. Não vi o jogo, nem a transmissão, só vi algumas cenas do noticiário. É sempre a mesma coisa. Os responsáveis tiram da reta enquanto o povo se engalfinha. Os torcedores que se comportam como malfeitores são fruto das políticas públicas da ditadura civil, que rouba tudo e deixa o povo se locupletar.

LUTA - Hoje, torcer para um time é o último reduto (e sua distorção) do legítimo espírito guerreiro, o que consegue vitórias com lutas. Já que há só subempregos (trocentos trilhões de carteiras asssinadas com merrecas), e ficou claro que todas as facções políticas desviam dinheiro do Tesouro Nacional, e que a concentração de renda está cada vez mais explícita, então não há mais arena de luta, tudo virou um caos. Os times que se diferenciavam em camisetas e torcidas agora são todos iguais, estão na vala comum do desespero, à mercê de árbitros vendidos, máfias virtuais e reais, cartolas corruptos. Os torcedores vêem nos estádios as sobras dos craques nacionais, já que todos os que sabem alguma coisa são imediatamente exportados. Quem é a bola? perguntava aquela outsider nas crônicas de Nelson Rodrigues. Boa pergunta. Não há mais futebol. Para quê juntar gente num gramado e trazer milhares de pessoas para assistir?

FOGO! - O mundo cansou de nossa proteína. Não querem mais nossa carne, nosso frango, nossos porcos. Daqui a pouco vão cagar em cima da soja transgênica que estamos plantando no Pantanal. Emporcalhamos a pecuária com contrabando paraguaio, introduzimos bactérias nos genes das plantações para que elas não morram, mesmo que acabem matando. A ditadura civil se acha eterna. Tacou fogo na mata, entregou o patrimônio, encheu a roupa de dólares, mandou matar e se garante. Está sempre pronta para outra. Temos pecados de origem. Não soubemos aproveitar o momento histórico. Agora babamos com a educação em outros países e esquecemos o quanto fomos bons nisso. Lembro que o lugar das arquibancadas mais mal afamada, onde só existiam pessoas barra pesada, onde havia grande concentração dos mais pobres e agressivos, era chamada antigamente de Coréia. Era o exemplo que tínhamos do caos, do país que saiu de uma guerra e de um milhão de mortos. Hoje a Coréia tem 80% da população com diploma universitário (ou em vias de conseguir um). Apostaram na educação básica ampla e gratuita. Hoje são meio fascistas na educação. O Brasil teria um outro caminho, mas ficou naquilo: nichos de excelência rodeados por um mar de mediocridade.

ESPANHA - Em carta para Urariano Mota, Jesús Gómez explica a situação educacional da Espanha, recentemente incensada por matéria da Globo. Pinço algumas frases do editor que todos admiramos, e que adverte que a história não é bem assim. Nem a educação é fruto do franquismo (segundo Jesús, o que existe de bom faz parte de uma linhagem histórica mais antiga, especialmente à fase republicana do país, derrotada pela guerra civil de 1936-39), nem a Espanha merece ser encarada como modelo: " Tenemos uno de los índices más bajos de profesores por habitante, al igual que sucede con los médicos y con cualquier otra cosa que tenga que ver con el Estado social y de derecho» que teóricamente deberíamos ser. Como el Estado no tiene medios suficientes, como el sistema impositivo es demasiado bajo y además recae fundamentalmente en los trabajadores y no en las empresas, no puede financiar suficientemente la salud, la educación, etc..." Mais adiante, Jésus explica o grande número de universitários: " Tenemos uno de los índices más altos de universitarios, pero únicamente porque el Estado siempre ha estado interesado en mantener aparcado al mayor número posible de jóvenes. ¿Por qué? Porque los índices de desempleo españoles son los mayores de Europa occidental con gran diferencia. Y cuesta menos -y desde luego es menos peligroso socialmente- tener a un millón de jóvenes como estudiantes a tenerlos en la calle, sin trabajo, o con trabajos tan mal pagados que no sirven para nada. Una de las consecuencias de eso es que, naturalmente, la universidad española es desastrosa" . Aqui, Jesús, temos as universidades das ruas, a lei da selva.

13 de outubro de 2005

Diário da Fonte
LANÇAMENTO EM PROFUNDIDADE




Roberto Carlos chuta de trivela (com os três dedos do pé), quase em curva, e a bola cai no peito de Cafu, uns seis quilômetros à frente. Alex, sem espaço, sabe colocar a bola quicando na frente de Robinho, bem na medida para um chute que bate na rede pelo lado de fora. Ronaldinho Gaúcho é o goleador que conhece todos os segredos da profissão de garçom, pois serve como ninguém, especialmente para Ronaldo Fenômeno fazer o gol. Beckham, no Real Madrid, tem feito passes primorosos, bolas que atingem o alvo, que não é o gol, mas o companheiro. O lançamento em profundidade é a solidariedade que o talento demonstra quando tudo parece fechado e impossível de se chegar. É como o cavalo do Xadrez, que abre espaços contrariando a normalidade do sobe/desce, ou esquerda/direita. Há algo maior no retângulo de grama e isso só se descobre quando Zenon ou Gerson batem na bola sem pensar nela, mas em quem vai receber, esteja onde estiver. É o correio cinético mais eficiente e bonito do futebol. Depois de um lançamento em profundidade bem feito, podemos sair do estádio e ir para a casa. O dia está ganho, a vida também. Saímos convencidos, mesmo para um caso perdido como eu, pois costumo malhar o Roberto Carlos (quando chuta demais na barreira) ou o próprio Beckham (quando o marketing se sobrepõe ao futebol). Ontem, RC ainda fez o gol que sempre adia, o de falta.

MAGIA - Foi o Reinaldo, o grande craque do Atlético, que um dia confirmou o poder da energia cinética no jogo. Você pensa onde vai atingir e a bola segue direitinho a trajetória. É assim que se conseguem lances em profundidade. É claro que existe o talento e o treinamento, em que o pé costuma obedecer aos comandos mentais mais sofisticados. É um poder que todo mundo tem, reforçado quando existem palavras que servem de veículo para a magia. Quantas vezes os grandes craques cantaram que iam fazer determinada coisa e fizeram? Em Romário, isso é rotina. Vamos nos classificar e seremos campeões do mundo, disse ele em 1993. O ovo luminoso de que somos feitos (soma de energia e matéria, se seguirmos a clássica explicação da literatura esotérica, dos rosacruzes a Don Juan, de Castaneda) é um feixe de fios poderosos super concentrados. Como nos quadrinhos antigos (os mais recentes eu não acompanho...como assim, não existem mais quadrinhos? puxa) somos capazes de lançar fios à distância. Por eles segue a bola obediente, pousando suavemente dentro da área, nas garras de um goleador impiedoso. Se vem pelo alto ou a meia altura, não importa, é sempre em curva, que tanto pode evoluir para os lados quanto para o fundo, para onde a coruja pia. O receptor corre olhando direto para a bola ou apenas a recebe sem rodeios. O impressionante de um lançamento em profundidade bem feito é que a bola conhece perfeitamente o lugar onde deve cair. Ela cai onde os torcedores esperam e os adversários temem. Cai no centro do drama, no segundo de silêncio absoluto, antes da explosão admirada dos espectadores.

INTERVALO - No Show do Monopólio, intervalo da transmissão da Globo, um monte de jogos se comprimem num super reduzido espaço léobatístico. É o oposto do lançamento do qual falamos acima. É a contenção de lances, é a mesquinharia bem vendida, é o pouquinho de nada enquanto o planeta futebol explode. As outras redes ficam chupando dedo já que a Globo compra tudo. É irritante a alegria forjada de Galvão Bueno, que é feliz por ser parte do monopólio. Sua transmissão esconde o país que arde em chamas por toda a parte. Enquanto ele cria coisas como o bico da bola (existe o bico de pé, mas da esférica? não entendi), misteriosamente o médico legista do caso do prefeito assassinado em Santo André aparece morto e fica parecendo suicídio. O berro do povo encantado com o talento, que volta para a casa para viver sua vida sem soberania, encobre mais um mistério. O que será que realmente aconteceu? É mais uma testemunha desse caso escabroso que se vai.

RETORNO - Wendel Martins me envia surpreendente texto do Olé argentino. Não resisto e reproduzo a descrição do jornalista Leonardo Rodriguez Bruno dos três gols da seleção: "El primero, grábelo y véalo cada vez que esté melancólico, porque es un buen antídoto: Ronaldinho tiró un sombrerito y Adriano, en un gesto técnico genial, la mató de zurda en el aire y al toque la cruzó al segundo palo. El segundo, fue otra joyita. Adriano lo asistió a Ronaldo y O Fenómeno puso su marca registrada: gambeta larga y a cobrar. El que cerró la cuenta fue Roberto Carlos de tiro libre por falta a Ronaldinho. Y es tan cierto que el lateral mete uno de cada 30 que patea, como que cuando entran, son poemas".

12 de outubro de 2005

Diário da Fonte
UM PAÍS DE MENDIGOS




Nós, brasileiros, somos um povo de mendigos. Abrimos à força os portões do estádio em Belém não para incensar a individualidade do Ronaldinho Fenômeno (que não cabia em si de tão vaidoso) mas porque precisávamos de uma esmola espiritual do Brasil soberano. Para assistir e ficar perto do talento e da arte é que vestimos nossas bermudas puídas, nossos chinelos e camisetas gastas e fomos em massa ver um treino da seleção. Mas fecharam os portões e tivemos que abri-los à força. Fomos pisoteados e choramos. Entre nós, a maioria é de desnutridos, e uma boa parte está acima do peso. Não nos alimentamos direito porque vivemos como escravos. Tudo está no papel, protocolado, mas a febre aftosa se espalha porque tudo aqui é no papel, protocolado. Não se vai mesmo até o rebanho para ver se tem doença. Depois ficamos desesperados, pois não poderemos mais vender os bilhões em proteínas para eslavos, caucasianos, árabes e orientais. Usamos nossas terras maravilhosas para plantar soja transgênica, para extrair madeira e por isso existe seca na Amazônia e no Pantanal, ex-paraísos que nossa incúria de pais mendigo arruinou. Pedimos emprestado dinheiro estrangeiro sem nos importar com os juros. Um dia pagaremos com nosso território. Então seremos palestinos em nosso próprio país, expulsos pelos invasores endinheirados.

SUCATA - Fazemos tudo isso porque somos egoístas e não queremos que ninguém sobreviva. Tente escutar uma conversa em qualquer momento ou participar de uma. Um diz: o céu está azul. O outro replica: é, mas a metereologia disse que vai chover. Tente dizer num dia de calor qualquer: puxa, chegou a primavera. O outro vibra o calendário e replica: não, ainda estamos no inverno. Comprei um televisor. De que marca? Ah, essa marca parece que está sendo recolhida. Ei, vizinho, saia daí que eu quero me espalhar. Por isso vou ligar o som bem alto de madrugada porque odeio tua presença, tua existência. Mas como disse o presidente bem posto no país de mendigos, Deus é metalúrgico e carioca. Para isso votamos na mudança: para ter um idiota no poder. Vão gastar quatro bilhões para transpor a seca até a beira do rio São Francisco. Gastam milhões para divulgar um trecho da Fernão Dias que está duplicada, enquanto o resto da infra-estrutura cai aos pedaços. As escolas públicas são chamadas de Carandiru. Nenhuma mão de tinta, nenhum esgoto arrumado, nada. Os jovens se vestem de mendigos clonados do que vêem na TV. Usam boné e esses macacões meia canela, que se fossem usados quando eu era garoto teriam o tratamento merecido. São as famosas calças de pular sanga. Mas parece que adoram. E falam como galãs de novela: com uma linguagem sucateada, típica do país que entregou a soberania.

QUINQUILHARIAS - Na véspera do dia da criança, multidões se acotovelam para comprar quinquilharias chinesas. Os comerciantes sorriem: vendemos cinco por cento a mais, e isso é muito positivo. Não importa o quê ou para quem, importa é vender, fazer caixa. Na Espanha, país sem analfabetos, as crianças dispõem de livros de arte feitos exclusivamente para bebês, as canções de ninar são as mais belas do mundo, não há pixações nas casas e nas ruas. Aqui os vagabundos que emporcalham as cidades aparecem com um sorriso alvar na TV, são tratados como artistas e repetem uma só palavra: adrenalina. O país transformado em mendigo pela direita agora pertence à pseudoesquerda, que arrosta todos os pecados da História brasileira. Mas o presidente repete que não se pode consertar em quatro anos o que saiu errado em 500. É muita pretensão. Ele recebeu um país pronto, problemático sem dúvida, mas pronto, obra de sucessivas gerações de brasileiros que deram o sangue pelo território. E agora acha que só ele pita. Depois tu pita, como dizem em Uruguaiana.

CABARÉ - Mas agora tudo vai melhorar. Vão recolher todas as armas da população honesta e teremos que pagar pedágio para sair de casa, porque as quadrilhas armadas estarão em cada esquina. Somos, no fundo, um bando de cretinos. Ligue a TV e verás: pedofilia explícita nas redes abertas. Não vou dizer quais programas e onde, mas está tudo lá. Adolescentes vestidas de putinhas dançam para velhos devassos (tudo fantasia, claro, tudo de mentirinha, os velhos são de madeira), crianças de boquinha pintada rebolam (é assim que se dança hoje, elas imitam os adultos) diante de apresentadores com grossa camada de pancake no rosto e olhar mofino. Ninguém faz nada. Estamos nas mãos de gângsters. Bandido adora chutar mendigo.

11 de outubro de 2005

Diário da Fonte
A CRISTALEIRA DA DITADURA CIVIL



Hebe Camargo é a falsa inocência da tirania, a cristaleira onde se colecionam gracinhas, ou seja, os artistas do Brasil. No programa de ontem, Maria Rita foi recebida como um bibelô, coisinha de Jesus mais engraçadinha do mundo. É a maneira eficiente de colocar a grande intérprete, e seu repertório, na vitrine das coisas inócuas, onde tudo cabe, desde que se mantenha o arrocho do atual sistema. Hebe malufou por décadas, fazendo campanha descarada do sujeito que hoje está na prisão. Faz sempre a apologia da moral e dos bons costumes, reforçando agora a velha campanha contra o PT, partido que fez o serviço sujo: colocou a esquerda e os movimentos populares na vala comum da corrupção e da ineficiência. A campanha petista do jovenzinho que foi correndo se filiar ao PT logo que viu as denúncias é exemplar da cara de pau da cúpula do partido, que quer continuar usando o povo para seus propósitos, escancarados nas CPIs. A longevidade de Hebe representa a eternidade da ditadura que nos governa e a capacidade de adaptação aos tempos. Ela faz parte da galeria de personalidades famosas que reiteram o papel da arte: o de ser uma louça na cristaleira do sistema que exclui a maioria o tempo todo.

MODELO - Mas por que tanta amargura contra uma pessoa tão simpática, que todos adoram? Porque não foi por acaso que ela foi mantida tanto tempo no ar. Tudo vira pó naquele sofá. O pior é que serve de modelo para outras apresentadoras, todos clones de seus maneirismos e seu jeitinho de fazer televisão. Hebe é a velhinha de Taubaté da extrema direita, que se vangloria de suas riquezas e sente a maior pena dessa pobre gente que fica tentando ganhar remédio de graça nas filas do SUS. Existem pobres porque existe super concentração de renda e Hebe é um exemplo dessa distorção. Sustentada pela publicidade milionária, coberta de jóias nos eventos sociais, ela exibe a prepotência justificada dos que se locupletam com a grana expropriada da população (da qual, claro, sente pena). Mas isso é só amargura, claro. Precisamos nos submeter ao arrocho e ao deboche daqueles discursos tão corretos, aplaudidos pelo conservadorismo medieval. Estamos cercados pelas trevas. Saio para caminhar e três senhoras me cercam para me deixar uma mensagem de Jesus. Escapar desse tipo de situação é ser acusado de tinhoso, de que está contra a Bíblia. É uma sinuca de bico. Mais mil anos de ditadura.

NÃO! - A galeria dos artistas que adoram o Sim do desarmamento é o sinal de que fracassamos miseravelmente, como diria Mucio Borges da Fonseca. Todos são unânimes em apoiar o governo e a rede Globo na campanha para deixar as armas na mão das quadrilhas. E gravam seus testemunhos com aquela cara de politicamente correto, como se tivessem o direito de nos advertir contra o perigo na esquina. Ora, Chico Buarque, Maitê Proença et caterva: vão plantar batatas na estufa do autoritarismo. E preparem-se, porque o Não vai ganhar. Preparem-se para um resultado acachapante, idêntico ao de 1950, quando Getúlio Vargas, contra todos os prognósticos, deu uma lavada em todo mundo. Não brinquem com o povo do Brasil soberano, o mesmo que derrotou em dois plebiscitos, o parlamentarismo, pois sabe o quanto o Parlamento pode significar ditadura em nosso país e quanto um só presidente pode mudar tudo, para melhor. Arrumem bem suas caras lambidas e depois da derrota não me venham com a conversa de que este povinho não sabe votar. O povo vai votar em massa no Não. Vai todo mundo votar 1, Não ao desarmamento e os artistas de plástico vão ficar chupando cana. Mas você é a favor das armas, credo!? Sou contra o desarmamento, pois esse governo não tem moral nem garante a segurança de ninguém para obrigar toda a população a desarmar-se. O referendo será primeira resposta, o primeiro sinal do grande repúdio à ditadura civil. O Não não é de esquerda ou direita. O Não é o dedo em riste do povo que não quer mais se submeter ao hediondo sistema que nos governa.

RETORNO - Literatura e memória em ritmo de frevo na revista Cronópios: Urariano Mota abre o baú e nos brinda com o conto " Domingo na casa do Gordo" .

10 de outubro de 2005

Diário da Fonte
UM JABÁ INESQUECÍVEL



A Veja deitou moral em cima do lançamento da Maria Rita porque, na divulgação, a Warner deu um aparelho de escutar MP3 no valor de uns 500 ou 600 reais para os jornalistas que cobrem música nas grandes redações. Foi só uma desculpa para desancar a grande intérprete, claro. Como nada têm a dizer sobre a qualidade e o talento de Maria Rita, inventaram um motivo, logo o quê. As empresas sempre forraram as redações de jabás. Antes, muito mais do que agora. Acho que foi a partir do Collor que a coisa ficou escassa. Mas nos anos 80, quando eu era editor de revistas importantes, fazia parte da minoria que ganhava jabás em casa (para não despertar a inveja dos colegas não agraciados com o mimo). Lembro das caixas de vinho da Metal Leve, entre outros presentes ótimos. A Andrade Gutierres enviava miniaturas de escavadeiras, esse tipo de coisa que hoje não lembro qual a relação com qualquer coisa. Na época de Natal, era lei. Na antiga Folha da Manhã, da Caldas Junior, de Portinho, passava-se no mínimo uma semana tirando sarro do jabá que chegava. Lá, naquela época, era chamado de tôco. Bastava pousar um presente e toda a redação, na maior inveja, sussurrava em coro: tôco, tôco, tôco. Uma coisa que aprendi com o jabá é o seguinte: você mata a curiosidade de todos (do que se trata?) ou então compartilhe (presenteie alguma coisa se o jabá for generoso e tiver diversidade de objetos). Mas há um jabá que a gente nunca esquece.

ALCEU VALENÇA - Aconteceu o seguinte. O Dirceu Soares, saudoso companheiro da Ilustrada, da Folha de S. Paulo, era o crítico oficial de música do jornal. Como eu era um migrante, emergente, jornalista locado no copy, mas que queria fazer reportagens, pautar, escrever artigos , me ofereci para escrever sobre rock and roll, coisa que Dirceu execrava. Lembro que meus primeiros textos eram todos ácidos e críticos. Melhorou quando troquei meu velho Telefunken por um portentoso Gradiente , que seria pago em 13 prestações. Mas não me limitei ao rock, fazia também tudo o que o Dirceu Soares deixava eu fazer. Isso implicava participar de eventos, como ir para o Rio de Janeiro, ficar hospedado no Hotel Olinda (que era o máximo, à beira-mar, pelo menos para mim) e ainda assistir ao show de lançamento do disco A Banda do Zé Pretinho, de Jorge Ben (era Ben, mesmo). Isso foi em 1978. Essa espécie de jabá, viagem gratuita às custas da empresa que promove o produto e o evento, hoje é explícito: fulano viajou a convite da Turis Mundo. Antes a gente ia, curtia e cravava uma capa da Ilustrada sem dizer que tinha sido a Som Livre que cacifava tudo. Esse jabá foi inesquecível porque depois do show fomos a um restaurante em Copacabana jantar acobertados pela Som Livre. O fantástico divulgador nos incentivou a pedir do bom e do melhor. E lá fui eu com uísque idoso e camarão que parecia lagosta. De repente, chega o pobretão do Alceu Valença, naquela época em início de carreira. Sem saber o que pegava, apesar de dispor de amigo íntimo na mesa, o Paulo Klein (a quem tratava de Paulinho), pediu rabo de galo e uns tira-gosto populares. Quando chegou a hora do pagamento, o cara da gravadora puxou o cheque já assinado e pagou tudo. Alceu ficou furioso. Ei, vocês não me falaram nada. Achei que eu ia pagar a minha conta. Porra, vocês estradulando e eu aqui no seco (não foram exatamente essas palavras, mas foi mais ou menos isso). Gargalhamos a risada sem dó, não por crueldade, já que não sabíamos do dilema de Alceu (achávamos que ele queria aquilo mesmo), mas porque tinha sido muito engraçado.

JAZZOLOGY - Como crítico musical, eu ganhava o pacote completo das gravadoras. Até hoje tenho em Sampa a coleção Jazzology, com coisas primorosas de Django Reinhardt e Louis Armstrong, entre inúmeras preciosidades. Duvido que alguém tenha o LP Tetê e o Lírio selvagem, o primeiro disco da Tetê Espíndola. Eu tenho. Quando editava a seção de livros na Senhor, ganhei milhares de exemplares (tenho 3 mil na minha biblioteca em Sampa). Assim mesmo, distribuía um monte na redação e todos os meus colaboradores ganhavam o livro que resenhavam (o que não acontece ou acontecia na Veja, onde me enviavam o miolo e ainda pediam de volta. Ou seja, a Veja mesquinhava os livros para os resenhistas). Mas isso nem era jabá, era parte do trabalho. O certo seria o veículo comprar os livros para resenhar ou cacifar a viagem do crítico. Não é assim, nunca foi. Faz parte do jornalismo brasileiro. Falar disso agora como se fosse um crime e uma novidade, é de um cinismo sem fim.

SUGESTÕES - O fim de ano se aproxima e meu aniversário também. Portanto, podem enviar jabás para a redação do Diário da Fonte. Os dois volumes de Cobra de Vidro, do Sergio Buarque de Holanda (a única coisa que me falta do grande autor), serão benvindos. Romances contemporâneos de todas as nacionalidades também. Não se acanhem. Tôco, tôco, tôco. Uma coisa deve ficar clara: o jabá jamais influenciou minha seleção de assuntos. Sobre tudo e todos falei, da maneira que eu quis e bem entendi. Assessores de imprensa vinham com os olhos arregalados para mim: mas como você falou isso? Falei e pronto. Hoje, encobertos pelo véu do politicamente correto e da mídia falsamente transparente e responsável, os vigaristas encastelados nas editorias de cultura das redações fazem rigorosa seleção de autores e assuntos. Só entra quem for da curriola ou quem, pretensamente, acrescentar capital simbólico ao autor da resenha (é por isso que eles falam sempre sobre os mesmos). Grandes talentos ficam de fora, implorando uma nesga de espaço. Eles sabem que são assim. Por isso usam de má fé para desancar Maria Rita, como se estivessem sendo democráticos e justos. Continuam sendo vigaristas, apenas isso.

RETORNO - 1. A redação do Diário da Fonte recebe magnífico telefonema do Secretário Municipal de Cultura e Esportes, e maior ator do Brasil, Miguel Ramos, que elogia texto sobre Maria Rita, publicado no sábado. Miguel está preocupado: sua participação no filme de Tabajara Ruas, O General e o Negrinho, inclui andanças a cavalo. Nós, urbanos de Uruguaiana, não temos o costume de andar a cavalo. Mas para um ator como Miguel, seu ginetismo na tela deverá ser uma performance inesquecível. 2. Jary Cardoso me escreve dizendo que o lançamento do livro sobre Tarso de Castro, escrito pelo seu filho Tom, será lançado na lviraria Cultura em Sampa. Peço o livro para Tom Cardoso, para resenhar. Será um dos livros da minha lista deste ano, sem dúvida nenhuma.

9 de outubro de 2005

Diário da Fonte
O COLECIONADOR DE IDENTIDADES



Esta crônica, publicada hoje, domingo, no caderno Donna, do Diário Catarinense, é a homenagem a uma amizade que cruza décadas sem perder o prumo. Ao anunciar a publicação do texto, avisei Virson Holderbaum que sua persona, os inúmeros personagens que sugere com sua presença e biografia, pode agora ser compartilhada por muito mais gente,e não apenas por seu vasto circuito de amigos.

Nei Duclós

Preciso cruzar mais de cinqüenta quilômetros de imensas propriedades coroadas de lagoas, montanhas cobertas de mato e algumas de tetos nevados, vales e praias, antes de chegar ao núcleo do refúgio deste território oculto, onde mora Herr Holderbaum num castelo tão imponente quanto simples, um paradoxo que define a vida deste ermitão. Ele é um colecionador de identidades, guardadas em inúmeros aposentos, que vai me mostrando aos poucos, conforme se desenrola nossa conversa. O início da visita é ao pé de uma lareira, onde o fogo esquenta um pedaço de pedra lisa. Lá, tornam-se digeríveis pizzas e pinhões.

PAISAGEM - Antes que a lenha torne-se brasa, o conde me conduz ao imenso quintal pontuado de videiras e, depois de um pequeno portão oculto, cruza comigo uma barreira de água por meio de uma ponte levadiça. Ele me leva para o alto de uma duna e mostra o magnífico mar que banha duas ilhas enormes. A praia descortina-se em vários desdobramentos. Tudo está vazio no teimoso Inverno temporão de tímido sol. O vento bate em nosso corpo crivado de balas de safáris antigos. O conde não aponta mais o horizonte inalcançável, como fazia quando sonhávamos despertos. Coloca as mãos para trás, imitando o andar de alguém que não consigo lembrar, e sorri, bem posto no seu mirante. O chão de areia grossa e amarelo-branca torna o momento ainda mais estranho. Tudo parece desmoronar enquanto o dia se mostra gigantescamente novo, tão novo quanto no dia em que aqui chegamos pela primeira vez, vindos de um vale úmido e de um casarão sinistro.

Éramos naquela época náufragos de uma guerra perdida. Mas toda essa memória já não serve para o recluso dono do castelo. Descubro que convivi com sua verve apenas uns quatro anos e que ele faz parte de algo maior que não consigo alcançar agora. Tento impressioná-lo deitando conhecimentos sobre civilizações perdidas, mas para quem viu pessoalmente Miles Davis tocar com Airto Moreira num bas-fond de Nova York, nos anos 60, nada parece impressioná-lo. Ficamos em silêncio e resgato, de repente, a origem daquele passo prudente: é o de Cidadão Kane, antes de dizer Rosebud. O filme de Orson Welles fazia parte das jóias eternas de uma juventude incômoda. Ele assumia o personagem na fase mais introspectiva, palmilhando um Xanadu inverossímil.

ETERNIDADES - De volta à sala, o conde fala do tempo em que mergulhou nas minas de ametistas. Abordo então fantasiosamente a grande civilização da pedra construída pelos gigantes e que tornaram o que chamamos hoje de Brasil um jardim de delícias. Vejo as cataratas escondidas no mato em programas de viagens na televisão. É tudo certinho demais. Foi tudo colocado ali, de propósito. Digo isso para o conde. Ele olha para a fogueira. No fundo, o som de um exercício de violão chega aos nossos ouvidos.

Ele abre a primeira porta e um desconhecido virtuose prepara-se para a glória sem fazer alarde. Abre outra porta e alguém toca violino. Mais adiante, um artesão que trabalha as conchas levanta os olhos. Além, tecedeiras compõem um tapete gigantesco, cujas dobras tomam conta do teto.

Pergunto por que e para que tudo aquilo. Ele diz que prefere dedicar-se ao incentivo das eternidades que repousam nos talentos tímidos, pois cansou da precariedade de um país em sobressalto. Costuma reunir amigos de todos os calibres para grandes ágapes de pizzas feitas uma por uma, no maior capricho. Aprendeu pela vida, entre outras coisas. É quando convoca as identidades ocultas nos aposentos e dissemina o encontro, fonte perene de alegria.

Fala de prêmios perdidos, de vidas passadas, de pessoas mortas, de duendes e saltimbancos. Disfarça-se em algo conhecido para não me assustar. Mas pressinto que toda aquela herdade, não só o quintal do castelo, circundado por um fosso, e que tem as costas viradas para o mar, faz parte de um mundo perdido.

Eu só cheguei ali porque não me acostumo à realidade do que vejo, e não me conformo com a percepção cansada que tenho dos amigos. Sempre acho que existe algo muito maior por trás de cada gesto. Dizem para mim: você idealiza demais as pessoas. Mas olho para o alto e vejo um campanário. Existiria uma capela oculta no castelo? Lá o conde faz suas orações, ao som de cantos gregorianos.

RETORNO - 1.Muita revolta aqui no DF pela matéria "O mensalinho da filha da Elis", que saiu na Veja. 2. Agora os jornalistas acordaram para o blog. Mas ainda estão atrasados, com exceção de alguns, como o impresncídvel blog do Noblat e o Código Aberto, de Carlos Castilho, do Observatório da Imprensa. A maioria trata blog como blog, ou seja, submete-se a uma estrutura considerada imutável. Blog é mídia, é instrumento, não veículo com regras fixas (posts curtos, linguagenzinha tipo informal, essas coisas). Novos veículos de comunicação precisam ser criados utilizando a ferramenta blog, mas está ocorrendo o contrário: os velhos veículos querem devorar os blogs. O Diário da Fonte é um jornal dentro do blog desde 2002. Outra coisa a destacar é que todos os blogs de jornalistas ganham notoriedade nos jornais e revistas (oh, todos blogam!). O Diário da Fonte, para variar, é referência zero na mídia impressa. É duro ser pioneiro e ainda ter de reivindicar, lembrar isso. Ei, eu estava aqui antes. A causa deve ser outubro. Estou em fase de bater o bumbo.

8 de outubro de 2005

Diário da Fonte
FICOU PIOR



Agora sim piorou. Todos justificam a barbárie em nome da ética. Preste atenção, dizem a cada minuto, num coral de razões insuspeitas, de carreiras virgens, de virtudes paradigmáticas. A sabedoria, vinda do estudo e da experiência, foi substituída pela casca do politicamente correto e todos os dedinhos se levantam em direção à próxima vítima. O novo fenômeno convive com as autocríticas deslavadas. Erramos, dizem, mas jamais mentimos. Os caçadores de bruxas deitam e rolam. Enquanto essa dupla execrável, Zezé di Luciano e Cagardo, é incensada pela mais avassaladora campanha publicitária de todos os tempos, enquanto esses dois se esgoelam na música filhota da mexicana berrando coisas, a grande presença da música popular brasileira que é Maria Rita é envolvida por sórdida matéria da Veja, que denunciou, ora vão plantar batatas, o jabá da Warner, que mandou um aparelho para ouvir MP3 de presente para 30 jornalistas. O problema não é o jabá, que sobra nas redações importantes há décadas e ninguém fala nada. É que o jabá precisa ser maior para seduzir essa minoria das redações. Tem jabá demais nos poucos veículos considerados importantes. Então uma dessas redações se dá o luxo de fazer denúncia, enquanto deixa passar a sacanagem que é implodir a paciência de todo mundo com essa campanha pelos filhos do Francisco. Pior ainda é o textículo da Veja reduzir a crítica ao novo disco de Maria Rita (que seria, em tese, o objetivo da matéria), a estas poucas palavras entre parênteses: (que, aliás, é bem ruim). O que significa isso?

CARISMA - Maria Rita foi acusada de "Elis genérica" (como são nojentos!) pela matéria apócrifa, dizendo que a cantora emulou a mãe para obedecer ao marketing da gravadora. Isso é de uma brutalidade sem fim. Maria Rita é talento puro e faz parte de uma cultura que se recusa a morrer. Talvez seja por isso que houve toda essa baixaria: a mediocridade fareja o talento e sempre está disposta a dar uma cacetada quando ele se manifesta. Maria Rita é um fenômeno. Empolgou o público com apenas um CD. Tem carisma, tem força e tem repertório. Com os filhos do Francisco, vai tudo bem, não é mesmo? Eles representam, além do enterro da sonoridade nacional, a frustração artística do pai (bem ao contrário dos pais de Maria Rita) que meteu goela abaixo os dois bobalhões com ajuda também do marketing (primeiro por conta própria, depois com o apoio das gravadoras). Todos acham uma gracinha. A dupla se arrebenta destruindo tudo que é canção, enquanto Maria Rita é a sofisticação da cultura popular, uma manifestação do Brasil soberano, o que ensina os outros países a cantar e a fazer música. O fato de seu disco ser lançado em 50 países é porque ela é excepcional e maravilhosa e não porque é filha da Elis, ou emula a mãe ou faz qualquer ato obsceno sugerido pelo jornalismo de aluguel.

AMOR - Eles tem ódio do talento, porque o talento os desmoraliza. Apodrecem em redações vendidas, fazem campanha contra a democracia, calam-se no tempo dos tiranos, se submetem a tudo, ao horror da televisão, às sacanagens do marketing, a tudo. Por isso não podem perdoar o canto perfeito e contundente de Maria Rita, que coloca todo o seu amor no seu novo disco, inspirada pela maternidade que , segundo suas palavras, deu foco à sua vida. Imagino o quanto toda essa porcaria esteja afetando a grande intérprete que, não por acaso, chegou para nos aliviar da dor deste país destruído pelas ditaduras. A desfaçatez política reina em todos os estamentos, dos campos de futebol ao Congresso. Agora liberou geral: roubam, sim, e vão abafar tudo, sim, e calem-se. Os irmãos do prefeito assassinado de Santo André encarnaram o dilema de Hamlet. Eles denunciam que o chefe do gabinete do Planalto entregou o esquema de corrupção no PT, no qual o prefeito estava envolvido. Esperava-se que os irmãos se calassem , já que o morto tinha culpa no cartório. Ser ou não ser? Ser, foi a resposta. E foram à luta. Disseram tudo com todas as letras. Ficou pior: parece que vai ficar por isso mesmo.

RETORNO - Jovem ensaísta faz longo texto sobre a poesia brasileira. Não me cita. Trocamos, publicamente no seu blog, mensagens sobre a exclusão. Ele se justifica dizendo que prefere ser como Baudelaire, parcial. Pobre Baudelaire. Também diz que lê "muita, muita" (a repetição é dele) poesia, mas jamais ouviu falar de mim. Replico que meus livros foram apresentados por Mario Quintana e Mario Chamie e meu nome tem mais 600 ocorrências no Google. Esse comentário não foi publicado no seu blog. Ficou assim com a palavra final: não te conheço e se quiseres manda teus livros. Não vou mandar nada. Quem perde é o ensaísta e não o autor. Exclusão: ficou pior.

6 de outubro de 2005

Diário da Fonte
AÇUCENA


AÇUCENA

Nei Duclós

Só existe uma
coisa na sua
mente: você

Só existe uma
coisa na sua
frente: o outro

Só o espelho
é vidente

(atrás do vidro,
a parede: meu corpo
refletido inteiro)

o fogo indiferente
o tiro no tapete

Só o teu cheiro
extraio da açucena

5 de outubro de 2005

Diário da Fonte
ORAÇÃO DE SÃO FRANCISCO



Tudo indica que Frei Chico vai morrer com sua greve de fome, já que ele está disposto a ir até o fim e o governo mostra-se indiferente e insiste em trazer a seca para onde está o rio, no lugar de eliminar a seca com a transposição das águas (de quebra, como medida compensatória, vai financiar projetos de produção de alimentos para exportação, os mesmos alimentos que faltam ao povo). Este é um governo perigoso e precisa ser enfrentado com todas as forças. Frei Chico apoiou Lula na campanha por acreditar que não seria levado adiante o projeto de trazer a seca, idéia do governo FHC. O frei andou a pé pelas margens do grande rio, que agora está condenado. Em louvor à coragem, transcrevo aqui a mais famosa das orações de São Francisco, santo que agora deve fazer parte de nossas devoções.

Louvado sejas, meu Senhor,
Com todas as tuas criaturas,
Especialmente o Senhor irmão Sol,
Que clareia o dia
E com sua luz nos alumia.
E ele é belo e radiante
Com grande esplendor.
De ti, Altíssimo, é a imagem.

Louvado sejas, meu Senhor,
Pela irmã Lua e as Estrelas,
Que no céu formaste claras
E preciosas e belas.

Louvado sejas, meu Senhor,
Pelo irmão Vento,
Pelo ar, ou nublado
Ou sereno, e todo o tempo,
Pelo qual às tuas criaturas dás sustento.

Louvado sejas, meu Senhor
Pela irmã Água,
Que é mui útil e humilde
E preciosa e casta.

Louvado sejas, meu Senhor,
Pelo irmão Fogo.
Pelo qual iluminas a noite.
E ele é belo e jucundo
E vigoroso e forte.

Louvado sejas, meu Senhor,
Por nossa irmã a mãe Terra,
Que nos sustenta e governa,
E produz frutos diversos
E coloridas flores e ervas.

Louvado sejas, meu Senhor,
Pelos que perdoam por teu amor,
E suportam enfermidades e tribulações.
Bem aventurados os que sustentam a Paz,
Que por ti, Altíssimo, serão coroados.

Louvado sejas, meu Senhor,
Por nossa irmã a Morte corporal,
Da qual homem algum pode escapar.
Ai dos que morrerem em pecado mortal!
Felizes os que ela achar
Conformes à tua santíssima vontade,
Porque a morte segunda não lhes fará mal!

Louvai e bendizei a meu Senhor,
E dai-lhe graças,
E servi-o com grande humildade.

CARTA - Frei Luiz Flavio Cappio dise o seguinte para o presidente: "Sempre fui seu admirador. Participei ativamente em todas as campanhas eleitorais do PT, alimentando o sonho de ver o povo no poder. Desde que o Governo Fernando Henrique apresentou a proposta de transposição do Rio São Francisco, fomos críticos acirrados deste projeto". Frei Chico, como todos nós, acreditou. Pagamos hoje o preço. Imperdível o Fotogarrafa de Marcelo Min, o olhar absoluto, que sabe de tudo. Lá ele mostra a dimensão humana de Frei Chico e deslancha a campanha pela internet a favor dessa luta.

RETORNO - Duas crônicas que publiquei no Diário Catarinense entram no circuito educacional de Santa Catarina. Foste a sonoridade que acabou faz parte de uma prova da secretaria estadual de educação para selecionar professores numa prova de comunicação e expressão. E Leitura de elevador é um dos textos complementares do cursinho Energia, aqui de Floripa. A primeira é sobre o sucateamento musical do Brasi soberano. O segundo sobre a perseguição à leitura no país ágrafo. Ambas já são do conhecimento dos leitores do DF e do meu site. Soube ontem, procurando no Google.

4 de outubro de 2005

Diário da Fonte
A MANIPULAÇÃO DO REFERENDO



Obrigar quem é contra a campanha do governo para o desarmamento a votar Não revela o quanto este referendo está sendo manipulado. Fazer campanha do Sim é lidar com a ilusão do pensamento positivo, para cima, fora do baixo astral do Não. A pergunta deveria ser: Você é a favor do comércio de arma de fogo? A Rede Globo entrou com tudo para legalizar a expropriação da legítima defesa da população honesta. Todas as suas estrelas fazem piruetas com a palavra Sim (a favor do desarmamento), pontuadas por depoimentos falsos, de uma seriedade vazia de fazer dó. É tudo uma enrolação, pois não pode haver tamanho consenso. Dá para ver que é tudo arranjado. Aí entram as pesquisas de opinião, que sabemos para que servem, garantindo que 76 por cento dos entrevistados são pelo Sim. Claro que não pesquisaram o grande interior, os grotões, onde possuir uma arma é a diferença entre uma vida digna e uma vida escrava.

BOI - A Veja entrou na parada a favor do Não, a favor do óbvio. O que há por trás do referendo? O medo da ditadura civil de ser derrubada do poder. Foi o que aconteceu em 1930, quando o povo armado (cem mil voluntários civis, só no RS) derrubou a longa ditadura da República Velha. Eles também querem dispor das nossas vidas como bem entendem. Desarmado, você fica na mão de todas as quadrilhas, que dominam o país. Elas já fazem gato e sapato de você, mas têm medo, querem garantia total. E usam a boa fé das pessoas que moram nas metrópoles para distorcer tudo. Nada vão fazer contra os bandidos, que continuarão armados e, depois do referendo, vão se locupletar vendendo mais armas ilegais. E os seguranças, ficarão sem armas? Eles formam um exército maior do que as forças armadas estaduais. É como proibir o álcool em nome da paz e da moralidade. Gerou os gângsters. Quando a lei seca foi derrubada, o que fazer com aquele enorme contingente de policiais que estavam empregados? Proibiu-se a maconha, e as drogas hoje, proibidas, viraram o maior comércio do mundo. Proíbe-se o corte de araucárias. Estão sumindo, pois quem tem araucária na sua propriedade derruba tudo, no escuro, sem que ninguém veja ou fiscalize, já que é proibido. Qual o animal que mais prolifera? O boi, que é legal, enquanto a os bichos pretensamente protegidos viram pó. Liberar significa trabalhar com a responsabilidade dos cidadãos e evitar o grande desperdício que é o comércio gigantesco da ilegalidade. Bandido adora proibição. Gente honesta quer ter liberdade, porque se garante. Ninguém que seja honesto vai sair por aí atirando. A posse de uma arma é a garantia contra quem entra na sua casa impunemente. Minha arma é outra: fé em Deus e a minha palavra. Mas quem precisa ter, deve ter.

PURO PAMPA - Meu pai respeitava a época da proibição da caça. Quando abria a temporada, ele saía a campo para caçar perdiz. Trazia algumas para casa, que viravam escabeche, para comer como aperitivo (ou iam direto para o forno ou a panela). Tínhamos armas calibre 12 e 32, pistolas e revólveres. Aprendi a atirar ainda com nove anos de idade. Mirava em latas de goiabada. Sempre errava. Nunca soube atirar nem vou aprender. Mas me insurjo contra essa palhaçada deste governo perigoso, que quer desviar as águas do São Francisco (no lugar de erradicar a seca, vai promover a seca onde tem rio hoje) e quer mais centrais nucleares (porque é irresponsável, tão irresponsável que importa pneu velho do primeiro mundo). Fiz um poema que mais tarde foi musicado por Muts Weyrauch, que diz assim: Pudera ser minha vida como um campo de caça/ sem arestas, puro pampa/ Onde vale a sabedoria, a atenção e o relâmpago/ Onde o silêncio é uma lição/ que está no sangue/ Pudera ser minha vida/ tão limpa quanto os arroios/ olhados à distância/ sem esta armadilha/ onde a mentira arma o escândalo.

BANG BANG - Uma coisa me invoca: em plena campanha, a Globo vem com uma novela chamada Bang Bang, onde, só no primeiro capítulo, correu bala adoidado. Imaginem os pioneiros desarmados, na mão dos ladrões de gado e assaltantes. Por isso diga Não. Vote Não. Pela paz, na diferença. Contra a manipulação. Pela dignidade e a honra.

2 de outubro de 2005

Diário da Fonte
CÃES FEROZES DE IÑARRUTI/ARRIAGA



De repente, a TV aberta consegue deixar de ser, por duas horas, esse poço sem fundo de imbecilidade e nos brinda com o impressionante Amores Perros, dos mexicanos Alejandro Gonzáles Iñarruti (diretor) e Guillermo Arriago (roteirista) , dois talentos que explodiram com esse filme em 2000, vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro, e que continuaram a aprontar: veio em 2003 o festejado 21 gramas e agora estão preparando Babel, com lançamento previsto para 2006. Se a Rede Record descobrir o óbvio, de que a TV aberta deveria investir pesado em cinema de qualidade, fora do horror da produção em série americana, que é produzida para idiotizar o mundo (programa em que o Brasil embarca religiosamente) e é cacifado pelas instituições reacionárias do Império (FBI, CIA, Pentágono, e isso não é teoria da conspiração, basta ver o que essas monstruosidades cinematográficas sugerem, é uma questão de enxergar), como dizia, se qualquer rede de televisão colocar em horário nobre, como fez ontem às dez da noite, algo como Amores perros, estaremos salvos. Tenho certeza que os melhores filmes que estão sendo produzidos nos últimos anos custam infinitamente menos do que as porcarias que importamos sem parar.

ARMADILHA - Amores perros foi traduzido por Amores brutos. Amores traiçoeiros, transgressores, dementes, imersos em remorso, sangue, dor, violência. A narrativa deságua, célere, sobre um ponto focal, um acidente. Nesse nó está concentrada a trama de personagens embrutecidos: o mendigo e ex-guerrilheiro que virou assassino de encomenda, os garotos que entraram no crime, a modelo que acaba de ir morar com seu amante que abandonou a família, os perseguidores movidos pela vingança. Desse miolo do furacão desdobram-se as tragédias pessoais do cunhado que quer roubar a mulher do irmão, da mãe pobre que não pode engravidar pela segunda vez por falta de recursos, dos sócios irmãos publicitários que caem na própria armadilha. Todas essas situações, encadeadas em seqüências aparentemente sem ligação (só num primeiro instante, depois tudo faz sentido) são amarradas por pit bulls, cachorrinhos de madame e de rua, rotweilers. Os cães, em Iñarruti/Arriaga, são a persona dos seus donos, tomados pela ambição e o desejo, pela perseguição e o abandono, pela desilusão e a gana.

FUGA - É um cinema de revólver na cintura, de vidas reais, de indiferença e horror. Fiquei colado na cadeira quando a paisagem urbana da cidade do México, sem chance de ser identificada (poderia ser São Paulo, qualquer cidade grande) começou a aparecer em disparada pela janela de um carro em fuga. Algo sinistro estava começando. Um filme sem igual, que nos traz a grandeza de uma filmografia cult e que está exilada da programação. Abram as comportas do melhor cinema contemporâneo e verão o resultado nas pesquisas de audiência. Será o fim do Programador do Traço, aquele sujeito que espera todo mundo ir dormir, e quando não há mais ninguém vendo, coloca no ar, em horas impróprias, alguma obra-prima. Usem o melhor horário, aquele em que compulsivamente estamos na frente da telinha. Não sejam tão cachorros. Só espero que o fato de programarem o filme de ontem não tenha sido um descuido, mas sim uma decisão consciente.

FRONTEIRA - No concerto internacional das nações, o Brasil é alvo de deboche. O governo atual acha que pode enrolar todo mundo, como faz por aqui. Ninguém vai nessa conversa mole. A China conseguiu o que queria: abaixamos as calças para os grandes contrabandistas predadores e ditadores da mão-de-obra escrava, reconhecendo que eles são uma economia de mercado e pronto , eles tratam os brasileiros aos socos e pontapés, como notou Boris Casoy na Record. O Kirchner então nem se fala: faz o que quer, pisoteia, vem e vai como bem entende, sem dar satisfações a ninguém. O côco-bicho (como eram chamados em Uruguaiana os cabeçudos de grandes orelhas) Chavez é tratado a pão-de-ló e, como todo folgado, apronta. Companheiro Chavez uma pinóia. Não há companheirismo entre nações soberanas. Há negociação. O Chavez querer que haja debate político é um achincalhe. Debate político ele faz com o povo venezuelano. Entre países independentes, não há debate político, existem acordos, concessões mútuas. Fronteira serve para isso: paz na diferença. Toda vez que me falam em mundo sem fronteiras tenho um arrepio de pavor. Imaginem o mundo passando a mão na bunda do Brasil só porque abdicamos das fronteiras. Claro que isso não está acontecendo...ou está? Não, não está. Temos ainda Uruguaiana. Lá, graças a Deus, existe fronteira. E sabemos o quanto isso nos custou.

RETORNO - "Ronald Golias ou quando o riso era remédio" é a homenagem no La Insignia de Urariano Mota ao que ele considera o maior ator cômico do Brasil. O texto serve como advertência: não reconhecer o gênio nos contemporâneos é um vício que deve acabar. Golias serve para inúmeras análises. Minha proposta, além de concordar com tudo que UM diz sobre o gênio que se foi, é resgatar o link de Golias com Totó, o grande cômico italiano, que está na fonte de inúmeras manifestações brasileiras dessa arte de fazer rir. Golias, que criou seu estilo, digeriu genialmente Totó, identificando-se, muitas vezes, com seu andar, suas caretas, suas tiradas surpreendentes. É bom também destacar outra contribuição de Totó: Rogério Cardoso, com seu Rolando Lero, o personagem da escolinha do professor Raimundo, reproduziu fielmente uma piada de um filme de Totó. Este, ao saber pelo seu professor que Sócrates, o filósofo, tinha morrido, replicou: Morreu, como? Não me diga, e desatava a chorar. É a mesma situação, que Rogério Cardoso abrasileirou.